Tuesday, June 30, 2009

Love And Guns (Amor e Armas)

A few days ago, I read on the Internet that a pastor in Kentucky told his parishioners to bring handguns to church for a service celebrating the right to bear arms, in what he said was an effort to promote safe gun ownership. When the service started, 200 people were there… I have also been reading about Mark Sanford, the governor of South Carolina, who betrayed his wife with an Argentinean. First he confessed his betrayal, afterwards he apologized and cried, while his wife tried to put a brave face. Interestingly, the news about the pastor in Kentucky appeared only one day and didn’t get any attention. But the news about the South Carolina’s governor is still being pursued by the press, avid for more details about the affair. Comparing these two coverages, I come to two conclusions: first, I am glad that I am not a journalist anymore because I am not proud of the way the press behaves nowadays. Second, I can’t understand a country where a private affair becomes state business.

The other day I was talking with a Brazilian whose wife had just had a baby, and he asked me if I thought that it had been wise to move to the US, or if I regretted the fact that my kids had been raised in the US. I didn’t need to think twice to answer that I regretted that they had been raised here. The reason I gave to him was that in Brazil the extended family played a very important role in the children’s lives. Siblings, cousins, aunts, and grandmothers… everybody was very close. While here, the bonds didn’t seem to be so strong. Besides, I would always be Brazilian while my children had become Americans. There was an abyss separating us that was very difficult to bridge.

But it wasn’t just because of the family that I felt that I would like to be living still in Brazil. It was also because of the guns and the extra-marital affairs.

Unfortunately, Brazil is a very violent country with gang wars exploding everywhere. But there is a very strong movement to contain the spread of arms and one would never find a church that would welcome guns inside it. On the other hand, it wouldn’t be very difficult to find a pastor suggesting that his parishioners bring flowers to the church to celebrate peace on earth.

As for the governor, one of the biggest newspapers of Sao Paulo, Folha de Sao Paulo, reported on the subject once, to comment that it was strange that the governor had been out of touch with his staff for a few days, and another time to report that he had admitted to an affair. And that was the end of it. No big deal. Nobody in Brazil would think that the governor’s affair had impacted his ability to govern the state. His affair would be considered something that he would need to discuss only with his wife.

On occasions like these, I find myself pondering my feelings in relation to this country: will I ever understand it? Will this country ever understand people like me? I don’t know if my children who grew up here would support a pastor who welcomed guns and a press that delights on trashing someone’s love life. On the other hand, sometimes I wonder if maybe it is not a matter of being Brazilian or not, but of being able to discern what is right from what is wrong.


Há alguns dias, li na Internet que um pastor em Kentucky sugeriu que seus paroquianos trouxessem suas armas à igreja, para uma missa celebrando o direito de portar armas. Segundo ele, isso era parte de uma campanha para fazer com que as pessoas portassem armas com responsabilidade. Quando a missa começou, havia 200 pessoas na igreja ... Também tenho lido sobre Mark Sanford, o governador da Carolina do Sul que traiu a mulher com uma argentina. Primeiro ele confessou a traição, depois pediu desculpas e chorou, enquanto sua esposa tentava fazer de conta que tudo estava bem. Curiosamente, a notícia sobre o pastor em Kentucky apareceu só um dia e não recebeu nenhuma atenção. Mas a notícia sobre o governador da Carolina do Sul continua sendo um prato cheio para a imprensa, ávida por mais detalhes sobre o assunto. Comparando estas duas coberturas jornalísticas, chego a duas conclusões: primeiro, estou feliz por não ser mais jornalista, porque não me orgulho da forma com que a imprensa se comporta atualmente. Segundo, não posso entender um país onde um assunto privado torna-se uma questão de Estado.

Outro dia estava conversando com um brasileiro cuja esposa tinha acabado de ter um bebê, e ele me perguntou se eu achava que tinha sido uma boa coisa mudar para os EUA, ou se lamentava o fato de os meus filhos terem sido criados aqui. Nem precisei pensar duas vezes para responder que arrependia de tê-los criado aqui. Expliquei a ele que no Brasil a família tem um papel muito importante na vida da criança. Irmãos, primos, tias, avós ... todo mundo está muito ligado. Enquanto que aqui, os laços não parecem tão fortes. Além disso, sempre serei brasileira, embora meus filhos tenham se tornado americanos. Um abismo nos separa e esse abismo é muito difícil de atravessar.

Mas não é apenas por causa da família que gostaria de estar ainda no Brasil. É também por causa das armas e dos casos de amor extra-conjugais.

Infelizmente, o Brasil é um país muito violento, com guerras de gangs explodindo por todo lado. Mas há um movimento muito forte para conter a proliferação de armas, e não seria possível achar um pastor que aprovasse o uso de armas na sua igreja. Por outro lado, não seria difícil encontrar um pastor que sugerisse a seus paroquianos para trazerem flores à igreja para celebrar a paz na terra.

Quanto ao governador, a Folha de São Paulo, um dos maiores jornais de São Paulo, tocou no assunto uma vez, estranhando que ele tivesse ficado fora de contato com sua equipe por alguns dias, e numa outra vez, para informar que o governador havia confessado o caso amoroso. Esses foram os únicos comentários. Nada mais. Ninguém no Brasil iria achar que o adultério do governador teria um impacto na sua capacidade de governar o estado. O adultério seria um problema a ser discutido apenas entre ele e a esposa.

Em ocasiões como estas, fico pensando o que sinto por este país: será que um dia irei entendê-lo? Será que este país um dia entenderá as pessoas como eu? Não sei se meus filhos que cresceram aqui iriam ser a favor de um pastor que apoia a proliferação de armas e uma imprensa que se delicia arrasando a vida amorosa de alguém. Por outro lado, às vezes me pergunto se é uma questão de ser brasileiro ou não, ou de ser capaz de discernir o que é certo do que é errado.

Photograph by Bill Eshbach

Thursday, June 25, 2009

The Swamp Man (O Pantaneiro)

I look at the picture in this post and see that it is fading. The water lost its brightness, and I can barely distinguish the faces of the people in the pickup truck. Time is relentless, always ready to leave its imprint on everything. But time cannot erase my memories, and I remember very well the day that this picture was taken: the swamp hugging us, the birds singing, the feeling of freedom, and the realization that we were nothing compared to the beauty of nature.

That day, my ex-husband and I flew with my uncle from my hometown, Corumba, to visit his farm. When we got there, he offered to take us for a ride. It was the time of the cheia, when the swamp swells and for miles and miles you can see mostly water. My uncle drove the pickup truck on waterlogged fields, over huge puddles, some shallow some very deep. Whenever we got close to a puddle he would wonder: are we going to pass through it? We finally reached one in which we got stuck and had to wait until a tractor would come to fetch us. While we waited, my cousin swam in the swamp, unafraid of fish or alligators.

With my uncle, everything was an adventure. I remember a time when we went to a beach on the north of Rio de Janeiro. My uncle was driving and, from time to time, he would fall asleep. Then he would wake up and say that it was good to sleep: he had been dreaming of Paris… In that same trip, the car broke and we stopped at a gas station. My aunt was tired so she took a mattress from the car and went to sleep inside the gas station. She could be as original as my uncle.

Aside being a farmer, my uncle had a newspaper in my hometown. It was in his newspaper that I worked for the first time in my life as a journalist. I was about 15 years old, and he allowed me to publish a daily column. Sometimes I wrote about the gossips of town, other times I pondered more serious subjects like the Vietnan War that was taking so many lives. The newspaper was old-fashioned: one worker set the types, one character at a time, to imprint the image on paper. We wrote our articles using old typewriters that made a lot of noise and seemed to be always out of ink.

The newspaper was also a place for my uncle to discuss ecology. He was very concerned about the wetland ecosystem and intent on preserving it. He loved and respected the swamp and everything that lived in it.

Later in his life, his farm became a hotel farm, where tourists would go to enjoy all the beauty of the swamp. Whenever someone asked him how many stars his hotel had, he would say that it had a million of stars. My uncle was right. In the sky, there were always a million of stars lighting up his farm and seeming to shine especially for him.


Olho para a foto que coloquei neste post e me dou conta de que parece meio apagada. As águas do pantanal perderam o brilho, e mal posso distinguir os rostos das pessoas na pickup. O tempo é cruel e está sempre pronto a deixar sua marca. Mas o tempo não consegue obscurecer minhas lembranças, e eu me lembro muito bem do dia em que essa foto foi tirada: o pantanal nos abraçando, os pássaros cantando, a sensação de liberdade, e a constatação de que não somos nada comparados com a beleza da natureza.

Naquele dia, eu, meu ex-marido e meu tio pegamos um avião na minha cidade natal, Corumbá, para visitar a fazenda do meu tio. Quando chegamos lá, ele se ofereceu para nos levar para um passeio. Era a época da cheia, quando o pantanal incha e por milhas e milhas pode-se ver água por toda parte. A pickup passava sobre campos inundados e poças d’água enormes, algumas rasas outras fundas. Sempre que chegávamos perto de uma, meu tio perguntava: será que a gente passa? Finalmente chegamos numa em que ficamos atolados e tivemos de esperar até que um trator viesse nos buscar. Enquanto esperávamos, meu primo resolveu nadar, sem se preocupar com peixes ou jacarés.

Com meu tio, tudo era uma aventura. Lembro-me de uma viagem que fizemos para uma praia no norte do Rio de Janeiro. Meu tio estava dirigindo e, de vez em quando, dava uma dormida. Logo acordava e dizia que tinha sido bom dormir: tinha sonhado com Paris ... Na mesma viagem, o carro estragou e tivemos de parar num posto de gasolina. Minha tia estava cansada e resolveu pegar um colchonete no carro para dormir dentro do posto de gasolina. Ela podia ser tão original quanto meu tio.

Além de ser fazendeiro, meu tio tinha um jornal na minha cidade natal. Foi no seu jornal que trabalhei pela primeira vez na minha vida como jornalista. Eu tinha mais ou menos 15 anos, e ele me deixou publicar uma coluna diária. Às vezes eu escrevia sobre as fofocas da cidade, outras vezes discutia assuntos mais sérios como a guerra do Vietnam que estava matando tanta gente. O jornal era do tipo antigo: um dos funcionários arrumava as letras de metal uma por uma numa placa, que depois era levada para a impressora. Escrevíamos nossos artigos usando máquinas de escrever quase centenárias que faziam muito barulho e pareciam estar sempre sem tinta.

O jornal também era um veículo para meu tio debater sobre ecologia. Ele se preocupava muito com a preservação dos ecossistemas. Adorava e respeitava o pantanal com todos os seus habitantes.

Alguns anos mais tarde, sua fazenda se tornou um hotel fazenda, onde os turistas iam para apreciar a beleza do pantanal. Sempre que alguém lhe perguntava quantas estrelas seu hotel tinha, ele dizia que tinha um milhão de estrelas. Meu tio estava certo. No céu, havia sempre um milhão de estrelas iluminando sua fazenda e parecendo brilhar especialmente para ele.

Thursday, June 18, 2009

Go Hunt A Frog (Vá Caçar Sapo)

I had a job interview de other day and my friend said: break a leg! Even though I have been in the US for a long time, and I have learned that “break a leg” in fact means good luck, I found myself worrying about my leg. It was so strange to have someone wishing me such a thing!

To learn a new language or to explain to a foreigner why you say this and that in your own language is a big challenge. There are countless stories of foreigners saying words that they think are correct but in fact are wrong and causing the locals to laugh almost hysterically. If someone in the US tells a Brazilian that he “hit the sack”, the Brazilian might think that he was actually hitting the sack, not in fact going to sleep like the expression suggests. On the other hand, if a Brazilian tells an American that something was “done in the thigh”, the American might understand the expression literally while the meaning, in fact, is that something was not done very well.

I am trying to teach Portuguese to an American and there are many idiosyncrasies in the language that I can’t explain. In Portuguese, all words have gender being either masculine or feminine. Instead of a house being “it”, it is a she. However, I find it very difficult to clarify why the forehead is a “she”, the mouth and the ears are also a “she” but the nose and the eyes are “he”. And how about the leg that is a “she” while the arm is a “he”? It can be very confusing.

Even though words can be puzzling, the culture of the people can be even more complicated to understand. It is very tricky to fit into one culture coming from another since the social, familiar, and professional life tend to vary greatly from country to country.

A few years ago, in a matter of 15 days I went to a wedding in Brazil followed by one in the US. In the Brazilian wedding, the food was abundant. Dinner was served and later on came supper. For the ones who decided to stay and dance through the night, there was breakfast the following day. In the American wedding, I was asked two weeks ahead if I preferred fish or beef so the parents of the bride could order the food beforehand and not have any leftovers. The party started at a certain time and 4 hours later everyone was gone. An American in a Brazilian wedding might have felt that he had to leave after dinner and miss all the dancing and the fun that lasted throughout the night. A Brazilian in an American wedding might be upset when the music stopped and everybody started to leave.

There are some countries where it is very common for people to relieve themselves in the streets. In Peru, it seems that the government is trying to change this habit. Walking through the streets of Oachutanga, I came upon a sign in Spanish that read: “Prohibido orinar bajo pena de arresto” which means “forbidden to pee or you can go to jail” Now, just imagine a sign like this in an American street… Customs! They are really peculiar.

So, when my friend tells me to go break a leg, I understand but feel uncomfortable. For a moment I am very tempted to tell him “vai caçar sapo” which literally means in Portuguese “go hunt a frog” but in fact means “go get lost”.


Outro dia eu tinha uma entrevista para um trabalho e meu amigo disse: vá e quebre a perna! Apesar de estar morando nos Estados Unidos há bastante tempo e já saber que "quebre a perna" significa, de fato, boa sorte, fiquei preocupada com minha perna. É tão estranho alguém lhe desejar uma coisa dessas!

Aprender uma nova língua ou explicar a um estrangeiro porque você diz isto ou aquilo no seu próprio idioma é um grande desafio. Existem inúmeras histórias de estrangeiros falando coisas que acham corretíssimas, mas na verdade estão erradas e fazem as pessoas do país morrer de rir. Se alguém nos Estados Unidos sugere a um brasileiro que vá "bater no saco", o brasileiro pode achar que é isso mesmo que deve fazer, sem entender que o verdadeiro significado da expressão é “ir dormir”. Por outro lado, se um brasileiro diz para um americano que algo foi "feito nas coxas", o americano pode entender a expressão literalmente quando, na realidade, isso quer dizer que alguma coisa não foi feita muito bem.

Estou tentando ensinar português para um americano, mas cada vez me surpreendo mais com as peculiaridades da língua. Em português, as palavras têm gênero, ou seja, são masculinas ou femininas. No entanto, como posso explicar que testa é feminina, boca e orelhas também são femininas, mas nariz e olhos são masculinos? E como explicar que perna é feminina enquanto braço é masculino? É muito confuso…

Embora as palavras sejam intrigantes, entender a cultura de um povo pode ser um desafio maior ainda. É muito complicado se adaptar totalmente a um outro país porque a vida social, familiar e profissional tendem a variar muito de um lugar para outro.

Há poucos anos, em uma questão de 15 dias fui a um casamento no Brasil e a um outro nos Estados Unidos. No casamento brasileiro, havia muita comida. O jantar foi servido primeiro e, mais tarde, teve uma ceia. Para os que decidiram ficar e dançar a noite toda, no dia seguinte foi servido café da manhã. No casamento americano, duas semanas antes me perguntaram se eu preferia peixe ou carne assim os pais da noiva podiam preparar a comida certinha sem sobrar nada. A festa começou na hora marcada e depois de quarto horas todo mundo tinha ido embora. Um americano num casamento brasileiro na certa iria embora depois do jantar e perderia as danças e a bagunça da noite inteira. Um brasileiro num casamento americano podia ficar chateado quando a música parasse de tocar e todos começassem a ir embora.

Em alguns países, é muito comum as pessoas urinarem nas ruas. No Peru, pelo jeito o governo está tentando mudar esse hábito. Andando pelas ruas de Oachutanga, vi um aviso em espanhol que dizia: " Prohibido orinar bajo pena de arresto", o que significa "é proibido urinar ou você pode ser preso". Dá para imaginar um aviso desses numa rua dos Estados Unidos? Os hábitos dos países são realmente muito diferentes…

Por isso, quando meu amigo me disse para quebrar uma perna, entendi o que ele queria dizer mas me senti meio constrangida. Por um momento fiquei tentada a lhe dizer "vá caçar sapo", que embora ao pé da letra seja ir caçar um sapo, na verdade significa vá procurar a sua turma.

Tuesday, June 16, 2009

Desculpem, Por Favor (Please scroll down to see English translation)

Hoje não quero escrever uma história. Só estou aqui para dar uma explicação. Quando comecei este blog, esperava que os americanos o lessem e que apenas alguns brasileiros se interessassem por ele. Para minha surpresa, o pessoal da minha família se entusiasmou com o blog e passou a lê-lo. Como eles começaram a me pedir pra traduzir os posts em português, finalmente resolvi fazer isso.

Tinha pensado em colocar uma bandeirinha do Brasil no lado esquerdo da página. Quando alguém clicasse nessa bandeirinha, um link se abriria com a tradução em português. Só que descobri que a única maneira de fazer isso seria utilizando a tradução automática do Google que, diga-se de passagem, deixa muito a desejar. “The Banana Man” transforma-se em “O Homem Banana” pelo Google, em vez de O Bananeiro; “The Wetland Train” vira “O Comboio Úmido” em vez de O Trem do Pantanal. Para evitar essas besteiras, resolvi fazer as traduções manualmente. Daqui pra frente, embaixo de cada post em inglês vocês poderão ver a tradução em português.

Mas, por favor, me desculpem. Há muitos anos não escrevo em português e acho que minhas traduções não serão lá essas coisas… Queria pedir a meus familiares e amigos escritores, jornalistas ou professores de português (que orgulho tenho de conhecer tanta gente talentosa!) que me corrijam. Se perceberem que escrevi alguma besteira, por favor me mandem um email (bpiassa@gmail.com) me corrigindo.

Muito obrigada por lerem meu blog!

Please Excuse Me

Today I do not want to write a story. I'm here only to give an explanation. When I started this blog, I expected the Americans to read it and only a few Brazilians to become interested in it. To my surprise, my family got enthusiastic about the blog and started asking me to translate the posts in Portuguese. I finally decided to do this.

Initially I had thought about putting a Brazilian flag on the left side of the page so when someone clicked on that, a link would open with the translation in Portuguese. But I discovered that the only way to do this would be using the automatic translation from Google that, by the way, is far from being good. To avoid this problem, I decided to do the translation manually. From now on, at the bottom of each post in English one will be able to read the translation in Portuguese.

However, I want to ask you to forgive me. I have not written in Portuguese for many years, and I think my translations are not going to be that good ... I would like to ask the writers, journalists or teachers of Portuguese in my family (and I am so proud to know so many talented people!) to correct me. If any of you realize that I wrote something stupid, please send me an email (bpiassa@gmail.com) correcting me.

Thank you for reading my blog!

Friday, June 12, 2009

The Girls (As Meninas)

For some reason, there are stories that like to linger in our minds, waiting for the appropriate time to be written. I have been thinking about a few stories, trying to decide which one I should write first. In the end, it turns out that it is not for me to decide. The right story just jumps from my mind to the paper, begging to be born.

Celia, Cibele, Rose, Maria da Gloria…. Today I am thinking about them and so many others. How did they appear and where have they gone? I have only a vague recollection …

When I was growing up, it was very common for people in Brazil to have maids. In my parents’ house, there was a cook, a housekeeper, a man who came to tend the garden from time to time, and a girl who was supposed to do all sort of small services. The girl wasn’t paid. She usually came from a farm, or from a family in our hometown that didn’t have money, and it was assumed that she would be glad to get housing and clothes for free.

Celia was one of these girls who lived in my parents’ house for a while. Celia’s mother used to visit her from time to time. I remember she coming to our house holding an umbrella to protect herself against the sun, sitting at the veranda with my mother and drinking lemonade. My mother would ask Celia to come and join them. For a few minutes, Celia would be there, visiting with her mother as a stranger would do. “Are you being good?” Her mother always wanted to know. Celia had sisters, but her sisters didn’t come to our house. We never thought about asking her if she missed her family. She was in her teens, a little older than my sisters and I.

Cibele was young, probably not older than 12, very thin, and with a propensity to move very slowly. My mother would send her to buy groceries and she would take hours to come back. When she was supposed to sweep the patio, she would be found sitting by the pool, her legs in the water, just singing.

Rose was also very young when she went with my sister to Sao Paulo where she babysat my sister’s children for a long time. She came back to our hometown one day and got married. She still visits my sister from time to time and my niece sometimes sends her money.

Maria da Gloria went to Rio de Janeiro with my grandmother. I remember her being upset when my grandmother scolded her but not saying one single word. I am not sure of what became of her. My aunts probably know.

These are the girls that I remember, but there were others as well. I wonder why we never concerned ourselves with their happiness, just assuming that they were there to serve us and they should be glad with that. Why did we never understand that they were just kids, like us? Did Celia like to eat oranges? Which was Cibele’s favorite color? How did Rose feel when we had a big birthday party and she never got one? Did Maria da Gloria dream about going to a store and choosing a brand new dress for herself? We never thought about asking. We didn’t mistreat the girls, but we also didn’t care very much about them.

I wish I could remember these girls better, but they appear in very few pictures. They didn’t have a central role in our lives. They were always close by, helping us and at the same time getting our leftovers... Those were other times, and I am glad they are gone.


Por alguma razão, há histórias que ficam na nossa cabeça, esperando o momento oportuno para serem escritas. Nos últimos dias tenho pensado a respeito de algumas histórias, tentando decidir qual deveria escrever primeiro. No final, a decisão acaba não sendo minha. A história certa salta da minha mente para o papel, implorando para nascer…

Célia, Cibele, Rose, Maria da Glória .... Hoje estou pensando sobre essas e tantas outras meninas. De onde é que elas apareceram e para onde foram? Tenho só uma vaga idéia ...

Quando eu era pequena, era muito comum no Brasil as pessoas terem empregados. Na casa dos meus pais, havia uma cozinheira, uma moça que limpava a casa e cuidava das nossas roupas, um homem que vinha de vez em quando pra tomar conta do jardim, e uma menina que fazia todo tipo de serviço. A menina não tinha um salário. Ela geralmente vinha de uma fazenda, ou de uma família da cidade que não tinha dinheiro, e decidia-se que deveria se sentir feliz por ter casa e roupa de graça.

Célia era uma dessas meninas que viveram na casa dos meus pais por um tempo. A mãe de Célia costumava visitá-la de vez em quando. Eu me lembro dela chegando na nossa casa segurando um guarda-chuva para se proteger do sol, sentando na varanda com a minha mãe e tomando limonada. Minha mãe então chamava Célia. E por alguns minutos Célia ficava lá, na frente da mãe, meio constrangida, como se fosse uma estranha. "Você está se comportando bem?" A mãe dela sempre queria saber. Célia tinha irmãs, mas suas irmãs não iam à nossa casa. Nós nunca pensamos em lhe perguntar se ela sentia falta da sua família. Célia era só um pouco mais velha do que eu e minhas irmãs.

Cibele provavelmente não tinha mais do que 12 anos, era magrinha e tinha uma tendência pra fazer tudo devagar. Minha mãe mandava Cibele ao mercadinho pra comprar comida e ela demorava horas para voltar. Quando Cibele deveria estar varrendo o pátio, ela estava com certeza sentada à beira da piscina, com as pernas na água, cantando.

Rose também era muito jovem quando foi com minha irmã para São Paulo. Ela tomou conta das minhas sobrinhas por muito tempo. Um dia Rose voltou para a nossa cidade e se casou. Ela ainda visita a minha irmã e minha sobrinha faz questão de lhe mandar dinheiro de vez em quando.

Maria da Glória foi para o Rio de Janeiro com minha avó. Eu me lembro dela com a cara meio emburrada quando minha avó zangava com ela. Maria da Glória ficava quieta, não respondia nada. Não sei o que aconteceu com ela, mas minhas tias na certa sabem.

Eu só me lembro dessas meninas, mas havia outras. Por que será que nós nunca nos preocupamos com a felicidade delas, sempre certos de que estavam ali para nos servir e deveriam ser felizes com isso? Por que nunca nos demos conta de que elas eram apenas crianças, como nós? Será que Célia gostava de comer laranjas? Qual seria a cor favorita de Cibele? Como será que Rose se sentia quando tínhamos nossas festas de aniversário, sabendo que ela nunca teria uma? Será que Maria da Glória sonhava em ir a uma loja e escolher um vestido novinho para ela? Nós nunca pensamos em perguntar. Nós não maltratávamos as meninas, mas também não nos incomodávamos muito com elas.

Gostaria de poder lembrar melhor dessas meninas, mas elas aparecem em poucas fotos. Não tinham um papel central na nossa vida. No entanto, estavam sempre por perto, ajudando-nos, enquanto só ganhavam as nossas coisas velhas ... Os tempos eram outros. Estou contente por eles terem mudado.

Wednesday, June 3, 2009

The Invisible Woman (A Mulher Invisivel)

Don’t worry. I will forgive you if you bump against me and don’t say “sorry.” I know you can’t see me. Nobody can. Lately, for some mysterious reason, I became invisible. Actually, not only invisible but dispensable as well. I used to think that the world reserved a special place for me. Now, I realize that the world not only is going about its business very happily without me, but it would rather not have me here at all.

Are you asking me why such depressing thoughts? I lost my job almost three months ago. In the beginning, I thought it would be easy to find another. I am experienced and confident. I believed I had a lot to offer. Then, the rejection letters started coming, or, even worse, the silence with which my applications were met started speaking more loudly than anything…

I started my job search in the field in which I have been working for the last 14 years: Marketing Research. From there, I moved to Publishing, which holds a very special place in my heart. Since none of these fields brought me any encouraging responses, I decided to expand my search: I tried Translation, Case Coordinator for Medical Companies who needed Portuguese speakers, Portuguese teaching – thank you very much, they all said.

I just learned that I am lucky enough to have 3 traits that employers usually avoid: I am 55 years old, a woman, and a foreigner. A well-known magazine for people older than 50 ran an article recently explaining that it takes about 18 weeks for someone younger than 50 to find a job while it takes 25 weeks for someone older than 50 to find one. A magazine for women over 40 mentioned how difficult it is for women to get jobs right now and how there are more women unemployed than men. As for being a foreigner, nobody says a word about this. It would be against the law.

One of the advices that career consultants give to unemployed people is for them to keep themselves busy and continue to learn something new every day. Since I have been jobless for almost 3 months and I am likely to continue like this for another 3 months, maybe it is time for me to learn another skill. I might try paragliding, rock climbing, cliff jumping, surfing… the possibilities are endless. So, if you don’t see a post in my blog every day, you already know the reason: I am busy learning some extreme sport.


Não se preocupe. Vou perdoá-lo se você esbarrar em mim e não dizer "desculpe". Eu sei que você não pode me ver. Ninguém pode. Ultimamente, por alguma razão misteriosa, eu me tornei invisível. Na verdade, não apenas invisível mas dispensável também. Eu costumava pensar que o mundo reservava um lugar especial para mim. Agora, percebo que o mundo não só continua girando muito bem sem mim, mas até preferiria que eu não estivesse aqui.

Quer saber por que estou pensando essas coisas tão deprimentes? Eu perdi meu emprego há quase três meses. No início, pensei que seria fácil arrumar outro. Tenho bastante experiência e sou uma pessoa segura. Eu acreditava que tinha muito pra oferecer. Então, as cartas de rejeição começaram a chegar, ou, pior ainda, o silêncio com que meus pedidos foram recebidos começou a falar mais alto do que qualquer coisa ...

Comecei procurando emprego com pesquisa de mercado, uma área na qual tinha trabalhado nos últimos 14 anos. Depois, me concentrei nas editoras, pois escrever sempre ocupou um lugar muito especial no meu coração. Já que não arrumei nada em nenhuma dessas áreas, decidi expandir meus horizontes: Tentei tradução, coordenação de serviços médicos para países de língua portuguesa, empregos para ensinar português em escolas - muito obrigado, todos me disseram.

Acabei descobrindo que tenho três características que os empregadores normalmente evitam: tenho 55 anos, sou mulher, e estrangeira. Uma revista bem conhecida para pessoas com mais de 50 anos publicou recentemente um artigo explicando que o tempo médio pra alguém com idade inferior a 50 arrumar emprego é de 18 semanas, enquanto o prazo para alguém com mais de 50 anos é de 25 semanas. Uma revista para mulheres com mais de 40 anos também publicou um artigo explicando como está difícil pra mulheres arrumarem emprego e como há mais mulheres do que homens desempregados. Quanto a ser estrangeira, nada se fala. Seria contra a lei.

Um dos conselhos que os consultores de carreira dão para desempregados é para eles manterem-se ocupados e continuarem a aprender algo novo todos os dias. Desde que estou desempregada há quase 3 meses e provavelmente continuarei assim por mais 3 meses, talvez seja hora de eu aprender alguma coisa diferente. Estou pensando em experimentar asa-delta, escaladas, pular de penhascos, surf ... as possibilidades são infinitas. Por isso, se você não vir um post no meu blog todos os dias, já sabe o motivo: estou ocupada aprendendo algum esporte extremo.

Photograph: Jaciara, MT - Google Earth