Tuesday, January 15, 2019

GOODBYE TUCSON (ATÉ MAIS TUCSON)


I am starting to say my goodbyes to Tucson. Every morning, when I go to the courtyard at my house and look at the mountains and the desert, I thank them for all the beauty that they provided me in the three and a half years that I have lived here. In the middle of the night, wandering through the house and looking outside at the trees discreetly illuminated by the lanterns, I say a prayer of thanks to them. There is so much to be thankful for. I will miss the beautiful desert, the mountains, the cactus, the coyotes howling in the night, the javelinas and bobcats, the adventurous people, the laid-back feeling of the town that reminds me of a Mexican siesta. I will miss the colorful houses, the countless trails with spectacular views, the warm sun, the fierce monsoons that strike so unexpectedly, leaving the plants and soil smelling exquisitely. There is a lot to miss and a lot to be thankful for as I start my next adventure that will lead me to Columbus, Ohio.

When we moved to Tucson, my husband and I thought this would be our last destination. We had forgotten that life is unpredictable and our plans very seldom turn out the way we expect. Now, family is pulling us to Ohio. There, the snow, humidity and a flat landscape wait for us. But the smiles of our grand kids will certainly warm and bring joy to our hearts… We became wiser: we are not planning on staying forever in Ohio. We learned that there is no forever, that life is not only unpredictable but also impermanent.

I learned a lot about nature and simplicity in Tucson. There were also other unexpected lessons: that the cactus needles jump on you and prick you even when you don’t touch them, what most people who don’t live in Tucson find hard to believe; that the Tucsonans don’t care much about following rules; that when someone in Tucson says they want to get together or invite you to their house, they usually don’t mean it;  that people in Tucson are surprisingly on time for every appointment; that the food is very spicy… As I close this page on my life, I think about everything I learned and what I will learn next.
So far, this has been a wonderful journey. There were bumps, stuff that happened and I would rather not even remember. Things that I would give my life to be able to change. But the highs and lows, the ugly and the beauty - everything was as it was supposed to be.  I am thankful for everything and looking forward to new lessons, new adventures.


ATÉ MAIS TUCSON

Estou começando a me despedir de Tucson. Todas as manhãs, quando vou ao pátio da minha casa e olho as montanhas e o deserto, agradeço-lhes toda a beleza que me proporcionaram nos três anos e meio que vivi aqui. No meio da noite, andando pela casa e olhando lá fora as árvores discretamente iluminadas pelas luminárias, rezo uma prece de agradecimento a elas. Tenho muito a agradecer. Sentirei falta do lindo deserto, das montanhas, dos cactos, dos coiotes uivando durante a noite, dos javalis e linces, das pessoas aventureiras, do ar descontraído da cidade que me lembra uma sesta mexicana. Sentirei falta das casas coloridas, das inúmeras trilhas com vistas espetaculares, do sol quente, das fortes tempestades que começam inesperadamente e deixam no seu rastro as plantas e o solo com um cheiro delicioso. Tenho muito para lembrar e agradecer quando eu embarcar na minha próxima aventura que me levará a Columbus, Ohio.


Quando nos mudamos para Tucson, meu marido e eu pensamos que esta seria nossa última mudança. Havíamos esquecido que a vida é imprevisível e nossos planos raramente se realizam da maneira como esperamos. Agora a família está nos atraindo em direção a Ohio. Lá, a neve, a umidade e uma paisagem plana nos esperam. Mas o sorriso de nossos netos certamente aquecerá nossos corações e nos trará muita alegria ... Nós nos tornamos mais sábios: não estamos planejando ficar para sempre em Ohio. Aprendemos que nada é para sempre, que a vida não é apenas imprevisível, mas também impermanente.

Aprendi muito sobre a natureza e a simplicidade em Tucson. Também tive outras lições inesperadas: aprendi que os espinhos dos cactos pulam na gente e nos espetam mesmo quando não tocamos neles, o que a maioria das pessoas que não mora em Tucson acha difícil de acreditar; que os nativos de Tucson não se importam muito em seguir regras; que quando alguém em Tucson diz que quer se encontrar ou convidar você para ir a casa dele, geralmente não quer dizer isso; que as pessoas em Tucson são surpreendentemente pontuais; que a comida é muito picante ... Ao fechar esta página da minha vida, penso em tudo o que aprendi e o que vou aprender ainda.


Até agora, esta tem sido uma jornada maravilhosa. Houve contratempos, coisas que aconteceram e eu prefiro nem me lembrar. Coisas que eu daria a minha vida para poder mudar. Mas os altos e baixos, o feio e o belo - tudo foi como deveria ser. Sou grata por tudo e espero, ansiosa,  pelas novas lições, novas aventuras.

Thursday, November 23, 2017

WORDS AND SILENCE (AS PALAVRAS E O SILÊNCIO)

Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa
I used to be addicted to words, always searching for the perfect one, the most beautiful one to convey my feelings. But some years ago, the words failed me. In a moment of unbearable agony, they became weak, insufficient, lacking power. I wanted to shout my pain, rage at my impotence, scream at the unfairness of life and at a world that I couldn’t and wouldn’t accept. There were no words strong enough to express that.
And when the words weren't there for me anymore and I had no one to turn to, I retreated into myself, finding refuge in nature, in the sounds of bamboos brushing against each other, birds singing, leaves falling in an eternal dance, happy with the end or the new beginning of their lives.
Like a child discovering the world, I turned to images. I started taking pictures of gardens, animals, rivers. Elderly cactus, proud mountains, and exquisite stones revealed themselves. Deer, coyotes, bunnies, snakes, grasshoppers, all came to greet me. They had always been there, but lost in an intellectual fog, engulfed by conflicts that I found so overwhelming, I was blind to everything else around me. I needed nature and a lot of meditation to remind me of my true self.
Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa

With their help, I was able to feel, to hear, to be content, to see clearly again. There was no need to scream anymore, just an enormous desire to be thankful, to accept all and everything, to live a different life where changes were always a possibility and where my problems were like colorful fish sliding gracefully down a stream. Then, slowly, very slowly, the words came back. Like old friends, they enveloped me in their arms, seducing me. I was delighted to be with them, but not all the time. I had become another person. I had realized that I would always love the words, but I should also make time for the silence. With the silence I could learn, find comfort and strength, nourish myself, and listen to my voice from inside. Within the silence I found peace.
Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa


AS PALAVRAS E O SILÊNCIO

Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa
Eu costumava ser viciada em palavras, sempre procurando a perfeita, a mais bonita para transmitir meus sentimentos. Mas há alguns anos, as palavras me falharam. Em um momento de agonia insuportável, elas se tornaram fracas, insuficientes, sem poder. Eu queria gritar minha dor, explodir com minha impotência, esbravejar contra a injustiça da vida e de um mundo que eu não podia e não ia aceitar. Não existiam palavras fortes o suficiente para expressar esses sentimentos.
E quando as palavras não estavam mais disponíveis para mim e eu não tinha ninguém a quem recorrer, escondi-me, encontrando refúgio na natureza, com os sons de bambus roçando um contra o outro, pássaros cantando, folhas caindo numa dança eterna, felizes com o fim ou o começo de suas vidas.
Como uma criança descobrindo o mundo, me voltei para as imagens. Comecei a tirar fotos de jardins, animais, rios. Cactos idosos, montanhas orgulhosas e pedras magníficas se revelaram para mim. Cervos, coiotes, coelhos, cobras, gafanhotos… todos vieram me cumprimentar. Eles sempre haviam estado lá.  Mas perdida em uma neblina intelectual, envolta por conflitos opressivos, eu estava cega para tudo o mais à minha volta. Precisava da natureza e de muita meditação para me lembrar de meu verdadeiro eu.
Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa

Com sua ajuda, pude voltar a sentir, ouvir, rir, ver claramente de novo. Não havia mais necessidade de gritar, apenas um enorme desejo de agradecer, aceitar todos e tudo, viver uma vida diferente onde as mudanças eram possíveis e onde meus problemas eram como peixes coloridos deslizando graciosamente num regato. Então, devagar, muito devagar, as palavras voltaram. Como velhas amigas, elas me envolveram em seus braços, me seduzindo. Me encantei por estar com elas novamente, mas não as desejava mais o tempo todo. Eu havia me tornado outra pessoa. Dei-me conta de que sempre amaria as palavras, mas também deveria abrir um espaço para o silêncio. Com o silêncio, eu podia aprender, encontrar conforto e força, nutrir-me e ouvir minha voz interior. No silêncio, encontrei a paz.

Thursday, October 22, 2015

ATÉ BREVE MAMÃE (SEE YOU SOON MOM)

Tem uma história do Chico Xavier em que ele estava num avião com muita turbulência e começou a gritar com medo do avião cair e ele morrer. Gritava e pedia ajuda divina. Até que Emmanuel, o espírito que o acompanhava sempre, apareceu e lhe disse, “Chico, se é para morrer, pelo menos morra com dignidade.”  Minha mãe recebeu esse presente divino. Morreu com dignidade. Assim como viveu, saiu deste mundo com elegância, pronta para ir visitar uma amiga. Morreu com planos, com sonhos. No mês de dezembro viria para os EUA me ver. Hoje, meu marido comentou comigo. “Puxa, que pena que ela não vem mais nos visitar. Eu queria poder retribuir a acolhida tão calorosa que ela me deu, na minha única ida ao Brasil”.
E a quantas pessoas ela acolheu... Sua casa estava sempre de portas abertas para os amigos, amigos dos amigos, parentes e até perfeitos estranhos. Quantos netos, bisnetos, sobrinhos, filhos, primos, foram lá passar as férias, sempre sabendo, sem a menor dúvida, que seriam recebidos muito bem na casa de Dona Anna Maria.
Um dia minha irmã comentou que, quando minha mãe morresse, seu enterro teria muita gente porque ela era amiga de quase toda a cidade. Ela era assim, discreta mas popular, chic mas simples. Sua generosidade não tinha tamanho. Com ela, aprendemos a arte da caridade. Desde pequenas a víamos dando um pão para um mendigo, costurando para os pobres, doando  tudo que não precisava mais. 
Foi uma mãe severa, exigindo muito dos filhos. Mas o que exigia, era que fizéssemos o melhor possível. Que tivéssemos ambição, que fôssemos viajar, que não nos conformássemos em viver num mundo pequeno, quando havia tanto para se ver por aí afora. Ela nos passou o amor pelas viagens, pela cultura, pela música. Será impossível ouvir uma ópera sem lembrar dela. Ensinou piano para as filhas, netas e bisnetas. Ensinou muito sobre a vida para os netos que praticamente criou.
Hoje ela se foi e, pra gente, fica o vazio. Sabemos que logo a veremos novamente e estamos felizes pela maneira pela qual ela partiu. Mas a saudade dói e a tristeza nos assalta nos momentos que menos esperamos.  De manhã, ela havia me dito que temos sempre de nos concentrar nas coisas boas. Eu não imaginava que essa seria sua última lição.
Até breve mamãe querida. Descanse em paz.

SEE YOU SOON MOM

There is a story about Chico Xavier on a plane with a lot of turbulence. He was scared that the plane was going to crash and started screaming and begging God for help. Then, Emmanuel, the spirit who always accompanied him, appeared and told him, "Chico, if you are going to die, at least die with dignity." My mother received this divine gift. She died with dignity. She left this world with elegance, like she lived, being ready to go visit a friend. She died with plans and dreams. In December she was coming to the US to see me. Today, my husband said to me. "What a pity that she won’t come to visit us. I wish I could return the warm welcome she gave me in my single visit to Brazil. "
And how many people she welcomed ... Her house was always open to friends, friends of friends, relatives and even perfect strangers. How many grandchildren, great-grandchildren, nephews, daughters, cousins, were there to spend the holidays, always knowing, without a single doubt, that they would be received very well in Dona Anna Maria’s house.
One day my sister said that when my mother died, her funeral would be attended by many people because she was friends with most of the city. She was quiet but popular, chic but simple. Her generosity was enormous. With her, we learned the art of charity. Since we were young we would see her giving bread to beggars, sewing for the poor, donating all that she no longer needed.
She was a severe mother, demanding a lot from her children. But what she demanded above all was that we did our best. She wanted us to have ambition. She wanted us to go traveling; she didn’t want us to accept to live in a small world, when there was so much to see somewhere else. She gave us her love for travel, culture, music. It will be impossible to hear an opera without remembering her. She taught piano to her daughters, granddaughters and great-granddaughters. She taught a lot about life for the grandsons whom she practically raised.
Today she is gone and, for us, there is this big void. We know that soon we will see her again and we are happy for the way she left. But the longing hurts and sadness comes to us in the moments we least expect. In the morning, she had told me that we must always focus on the good things. I did not know that this would be her last lesson.

See you soon my darling mother. Rest in peace.