Friday, November 1, 2019

THE QUILT (A COLCHA DE RETALHOS)


Every day, when I enter the guest room at my house and look at the quilt on top of the bed, I feel a smile starting to play on my face. The quilt reminds me of nature, with flowers everywhere, the fabric in soft tones of brown, yellow and cream, the subtle colors of autumn. It makes me happy to look at it. But it is the meaning of the quilt that touches and warms my heart. I got it at the hospital the day the doctors scheduled my surgery. A nurse came to discuss the details of the procedure with me and handed me the quilt. She explained that it had been made by the Stitching Sisters, a group of volunteers who provides quilts for nearly all cancer patients at the James, the Ohio State University Hospital. Since they started sewing in 2005, they have distributed over 27,500 quilts.
Four months ago, when I received my diagnosis of breast cancer, a friend of a friend who had lived through the same experience and was kind enough to contact me to discuss it, told me that I would be showered with kindness. She was right. From the moment of the diagnosis to the days of the radiation treatments, I encountered nothing but kindness. The doctors, the nurses and the technicians at the James Hospital where I am still receiving my treatment… All of them have gone out of their way to help, explain, share a few tips, discuss and prevent possible side effects of treatments and cheer me up all the time. They prove to me that not all human beings are like those heartless creatures, greedy, cruel and selfish as portrayed by the media. The majority of our fellow human beings are decent, compassionate, eager to help, to open their heart to relieve suffering and illness. We just have to be available to receive and the gift of love will keep pouring in our direction.
          Since I was diagnosed, I decided that I wouldn’t complain too much about my problems. Instead, I would be grateful for everything in my life. I was thankful for my early diagnosis, which meant that the doctors managed to remove the tumor during the surgery, leaving my breast intact. I was thankful for living in Ohio and being able to be treated at the James Hospital, with its excellent reputation for cancer treatments and research. I was and I am thankful for the support of my family and friends during these challenging times… I found a million reasons to be thankful.
          My 76-year-old aunt, who was also diagnosed recently with breast cancer, told me she didn’t ask “why did this happen to me”, but instead thought “why not me?” Throughout our lives, bad and good stuff happens and we need to accept all of them with dignity and gratitude. There is no reason to feel like a victim when around us there are so many people in extremely difficult situations. Plus, bad thoughts attract bad energy. If we delight in crying for ourselves, the Universe will send us more reasons to cry so we can enjoy our craving for unhappiness.
          The cancer was the best teacher I could have in my life. It taught me that some people feel uncomfortable with illness and prefer to ignore you if you say you are sick. Others don’t respect that you are living in a fragile moment and expect you to behave like always, as if your illness were some sort of inconvenience to them. That’s ok, they will learn their own lesson one day. The cancer taught me that medications have the weirdest side effects and that it is important to wait for the following day, to see if things get better. It taught me that the health system in the US definitely needs to be revised so a cancer patient is not considered a high risk for health insurance and can be denied certain kinds of coverage. The cancer reminded me to try to relax and believe in the power of spirituality, which has never failed me and always has come to my side in moments of need.
          The Universe is wise and doesn’t give us anything that we are not prepared to receive. Everyday it shows us its generosity. When I position myself on the metal bed for still another session of radiation, I imagine that the rays that are reaching my breast are the purest forms of energy sent by the Angels and Archangels to heal me. Afterwards, driving back to my house and crossing a river surrounded by a park with lots of trees changing colors, I think about how lucky I am to be alive.

                                               A COLCHA DE RETALHOS    

Todos os dias, quando entro no quarto de hóspedes na minha casa e vejo a colcha de retalhos em cima da cama, um sorriso ilumina meu rosto. A colcha me lembra da natureza, com flores por toda parte, o tecido em tons suaves de marrom, amarelo e creme, as cores sutis to outono. Fico feliz em olhar para a colcha. Mas é o significado dela que toca e aquece meu coração. Ela me foi dada no hospital no dia em que os médicos agendaram minha cirurgia. Uma enfermeira veio discutir os detalhes do procedimento comigo e me entregou a colcha, explicando que ela tinha sido feita pelas Stitching Sisters, um grupo de voluntárias que fornece colchas para quase todos os pacientes com câncer do James, o hospital da Universidade Estadual de Ohio. Desde que começaram a costurar em 2005, elas já distribuiram mais de 27.500 colchas.
Há quatro meses, quando fui diagnosticada com câncer de mama, uma amiga de uma amiga que havia passado pela mesma experiência e teve a gentileza de entrar em contato comigo para discutir o assunto, me disse que eu seria inundada por um mar de bondade. Ela estava certa. Desde o momento do diagnóstico até os dias da radiação, não encontrei nada além de bondade. Os médicos, as enfermeiras, os técnicos do Hospital James onde ainda estou recebendo meu tratamento ... Todos se esforçaram para ajudar, explicar, compartilhar algumas dicas, discutir e evitar possíveis efeitos colaterais dos tratamentos, me incentivar sem parar. Eles me provaram que nem todos os seres humanos são como aquelas criaturas sem coração, gananciosas, cruéis e egoístas, retratadas constantemente pela mídia. A maioria de nossos semelhantes é decente, cheia de compaixão, ansiosa por ajudar, abrir seu coração para aliviar o sofrimento e a doença. Temos apenas que estar disponíveis para receber e o presente do amor virá em nossa direção.
Desde que fui diagnosticada, decidi que tentaria não reclamar muito dos meus problemas. Em vez disso, seria grata por tudo na minha vida. Grata pelo meu diagnóstico precoce, que permitiu que os médicos tirassem apenas o tumor durante a cirurgia, deixando minha mama intacta. Grata por morar em Ohio e poder ser tratada no Hospital James, que tem uma excelente reputação em tratamentos e pesquisas sobre câncer. Grata pelo apoio da minha família e amigos durante esses tempos difíceis ... Encontrei um milhão de razões para agradecer.
Minha tia de 76 anos, que também foi diagnosticada recentemente com câncer de mama, me disse que não se pergunta "por que isso aconteceu comigo", mas pensa "por que não eu?" Ao longo de nossas vidas, coisas ruins e boas acontecem e precisamos aceitar tudo com dignidade e gratidão. Não há razão para se sentir vítima quando há à nossa volta tantas pessoas em situações extremamente difíceis. Além disso, pensamentos ruins atraem energia ruim. Se nos deleitarmos em chorar por nós mesmos, o Universo nos enviará mais motivos para chorar, para que possamos desfrutar do nosso desejo de infelicidade.
O câncer foi o melhor professor que eu poderia ter na minha vida. Mostrou-me que algumas pessoas se sentem desconfortáveis ​​com a doença e preferem ignorá-la se você diz que está doente. Outras não respeitam que você esteja vivendo um momento frágil e esperam que se comporte como sempre, como se sua doença fosse uma inconveniência para elas. Tudo bem, um dia todos aprenderão suas próprias lições. O câncer me mostrou que os remédios tem os efeitos colaterais mais estranhos e que é importante esperar o dia seguinte para ver se as coisas melhoram. Mostrou-me que o sistema de saúde nos EUA definitivamente precisa ser revisado, para que um paciente com câncer não seja considerado um risco para os seguros de saúde e seja rejeitado por certos tipos de seguros. O câncer me lembrou de tentar relaxar e acreditar no poder da espiritualidade, que nunca me falhou e sempre esteve ao meu lado nos momentos de necessidade.
O Universo é sábio e não nos dá nada que não estamos preparados para receber. Todos os dias ele nos mostra sua generosidade. Quando me posiciono na cama de metal para mais uma sessão de radiação, imagino que os raios que estão atingindo minha mama são as formas mais puras de energia enviadas pelos Anjos e Arcanjos para me curar. Depois, voltando para minha casa e cruzando um rio cercado por um parque com muitas árvores mudando de cor, reflito sobre a sorte que tenho de estar viva.

Tuesday, January 15, 2019

GOODBYE TUCSON (ATÉ MAIS TUCSON)


I am starting to say my goodbyes to Tucson. Every morning, when I go to the courtyard at my house and look at the mountains and the desert, I thank them for all the beauty that they provided me in the three and a half years that I have lived here. In the middle of the night, wandering through the house and looking outside at the trees discreetly illuminated by the lanterns, I say a prayer of thanks to them. There is so much to be thankful for. I will miss the beautiful desert, the mountains, the cactus, the coyotes howling in the night, the javelinas and bobcats, the adventurous people, the laid-back feeling of the town that reminds me of a Mexican siesta. I will miss the colorful houses, the countless trails with spectacular views, the warm sun, the fierce monsoons that strike so unexpectedly, leaving the plants and soil smelling exquisitely. There is a lot to miss and a lot to be thankful for as I start my next adventure that will lead me to Columbus, Ohio.

When we moved to Tucson, my husband and I thought this would be our last destination. We had forgotten that life is unpredictable and our plans very seldom turn out the way we expect. Now, family is pulling us to Ohio. There, the snow, humidity and a flat landscape wait for us. But the smiles of our grand kids will certainly warm and bring joy to our hearts… We became wiser: we are not planning on staying forever in Ohio. We learned that there is no forever, that life is not only unpredictable but also impermanent.

I learned a lot about nature and simplicity in Tucson. There were also other unexpected lessons: that the cactus needles jump on you and prick you even when you don’t touch them, what most people who don’t live in Tucson find hard to believe; that the Tucsonans don’t care much about following rules; that when someone in Tucson says they want to get together or invite you to their house, they usually don’t mean it;  that people in Tucson are surprisingly on time for every appointment; that the food is very spicy… As I close this page on my life, I think about everything I learned and what I will learn next.
So far, this has been a wonderful journey. There were bumps, stuff that happened and I would rather not even remember. Things that I would give my life to be able to change. But the highs and lows, the ugly and the beauty - everything was as it was supposed to be.  I am thankful for everything and looking forward to new lessons, new adventures.


ATÉ MAIS TUCSON

Estou começando a me despedir de Tucson. Todas as manhãs, quando vou ao pátio da minha casa e olho as montanhas e o deserto, agradeço-lhes toda a beleza que me proporcionaram nos três anos e meio que vivi aqui. No meio da noite, andando pela casa e olhando lá fora as árvores discretamente iluminadas pelas luminárias, rezo uma prece de agradecimento a elas. Tenho muito a agradecer. Sentirei falta do lindo deserto, das montanhas, dos cactos, dos coiotes uivando durante a noite, dos javalis e linces, das pessoas aventureiras, do ar descontraído da cidade que me lembra uma sesta mexicana. Sentirei falta das casas coloridas, das inúmeras trilhas com vistas espetaculares, do sol quente, das fortes tempestades que começam inesperadamente e deixam no seu rastro as plantas e o solo com um cheiro delicioso. Tenho muito para lembrar e agradecer quando eu embarcar na minha próxima aventura que me levará a Columbus, Ohio.


Quando nos mudamos para Tucson, meu marido e eu pensamos que esta seria nossa última mudança. Havíamos esquecido que a vida é imprevisível e nossos planos raramente se realizam da maneira como esperamos. Agora a família está nos atraindo em direção a Ohio. Lá, a neve, a umidade e uma paisagem plana nos esperam. Mas o sorriso de nossos netos certamente aquecerá nossos corações e nos trará muita alegria ... Nós nos tornamos mais sábios: não estamos planejando ficar para sempre em Ohio. Aprendemos que nada é para sempre, que a vida não é apenas imprevisível, mas também impermanente.

Aprendi muito sobre a natureza e a simplicidade em Tucson. Também tive outras lições inesperadas: aprendi que os espinhos dos cactos pulam na gente e nos espetam mesmo quando não tocamos neles, o que a maioria das pessoas que não mora em Tucson acha difícil de acreditar; que os nativos de Tucson não se importam muito em seguir regras; que quando alguém em Tucson diz que quer se encontrar ou convidar você para ir a casa dele, geralmente não quer dizer isso; que as pessoas em Tucson são surpreendentemente pontuais; que a comida é muito picante ... Ao fechar esta página da minha vida, penso em tudo o que aprendi e o que vou aprender ainda.


Até agora, esta tem sido uma jornada maravilhosa. Houve contratempos, coisas que aconteceram e eu prefiro nem me lembrar. Coisas que eu daria a minha vida para poder mudar. Mas os altos e baixos, o feio e o belo - tudo foi como deveria ser. Sou grata por tudo e espero, ansiosa,  pelas novas lições, novas aventuras.

Thursday, November 23, 2017

WORDS AND SILENCE (AS PALAVRAS E O SILÊNCIO)

Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa
I used to be addicted to words, always searching for the perfect one, the most beautiful one to convey my feelings. But some years ago, the words failed me. In a moment of unbearable agony, they became weak, insufficient, lacking power. I wanted to shout my pain, rage at my impotence, scream at the unfairness of life and at a world that I couldn’t and wouldn’t accept. There were no words strong enough to express that.
And when the words weren't there for me anymore and I had no one to turn to, I retreated into myself, finding refuge in nature, in the sounds of bamboos brushing against each other, birds singing, leaves falling in an eternal dance, happy with the end or the new beginning of their lives.
Like a child discovering the world, I turned to images. I started taking pictures of gardens, animals, rivers. Elderly cactus, proud mountains, and exquisite stones revealed themselves. Deer, coyotes, bunnies, snakes, grasshoppers, all came to greet me. They had always been there, but lost in an intellectual fog, engulfed by conflicts that I found so overwhelming, I was blind to everything else around me. I needed nature and a lot of meditation to remind me of my true self.
Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa

With their help, I was able to feel, to hear, to be content, to see clearly again. There was no need to scream anymore, just an enormous desire to be thankful, to accept all and everything, to live a different life where changes were always a possibility and where my problems were like colorful fish sliding gracefully down a stream. Then, slowly, very slowly, the words came back. Like old friends, they enveloped me in their arms, seducing me. I was delighted to be with them, but not all the time. I had become another person. I had realized that I would always love the words, but I should also make time for the silence. With the silence I could learn, find comfort and strength, nourish myself, and listen to my voice from inside. Within the silence I found peace.
Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa


AS PALAVRAS E O SILÊNCIO

Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa
Eu costumava ser viciada em palavras, sempre procurando a perfeita, a mais bonita para transmitir meus sentimentos. Mas há alguns anos, as palavras me falharam. Em um momento de agonia insuportável, elas se tornaram fracas, insuficientes, sem poder. Eu queria gritar minha dor, explodir com minha impotência, esbravejar contra a injustiça da vida e de um mundo que eu não podia e não ia aceitar. Não existiam palavras fortes o suficiente para expressar esses sentimentos.
E quando as palavras não estavam mais disponíveis para mim e eu não tinha ninguém a quem recorrer, escondi-me, encontrando refúgio na natureza, com os sons de bambus roçando um contra o outro, pássaros cantando, folhas caindo numa dança eterna, felizes com o fim ou o começo de suas vidas.
Como uma criança descobrindo o mundo, me voltei para as imagens. Comecei a tirar fotos de jardins, animais, rios. Cactos idosos, montanhas orgulhosas e pedras magníficas se revelaram para mim. Cervos, coiotes, coelhos, cobras, gafanhotos… todos vieram me cumprimentar. Eles sempre haviam estado lá.  Mas perdida em uma neblina intelectual, envolta por conflitos opressivos, eu estava cega para tudo o mais à minha volta. Precisava da natureza e de muita meditação para me lembrar de meu verdadeiro eu.
Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa

Com sua ajuda, pude voltar a sentir, ouvir, rir, ver claramente de novo. Não havia mais necessidade de gritar, apenas um enorme desejo de agradecer, aceitar todos e tudo, viver uma vida diferente onde as mudanças eram possíveis e onde meus problemas eram como peixes coloridos deslizando graciosamente num regato. Então, devagar, muito devagar, as palavras voltaram. Como velhas amigas, elas me envolveram em seus braços, me seduzindo. Me encantei por estar com elas novamente, mas não as desejava mais o tempo todo. Eu havia me tornado outra pessoa. Dei-me conta de que sempre amaria as palavras, mas também deveria abrir um espaço para o silêncio. Com o silêncio, eu podia aprender, encontrar conforto e força, nutrir-me e ouvir minha voz interior. No silêncio, encontrei a paz.