Thursday, November 23, 2017

WORDS AND SILENCE (AS PALAVRAS E O SILÊNCIO)

Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa
I used to be addicted to words, always searching for the perfect one, the most beautiful one to convey my feelings. But some years ago, the words failed me. In a moment of unbearable agony, they became weak, insufficient, lacking power. I wanted to shout my pain, rage at my impotence, scream at the unfairness of life and at a world that I couldn’t and wouldn’t accept. There were no words strong enough to express that.
And when the words weren't there for me anymore and I had no one to turn to, I retreated into myself, finding refuge in nature, in the sounds of bamboos brushing against each other, birds singing, leaves falling in an eternal dance, happy with the end or the new beginning of their lives.
Like a child discovering the world, I turned to images. I started taking pictures of gardens, animals, rivers. Elderly cactus, proud mountains, and exquisite stones revealed themselves. Deer, coyotes, bunnies, snakes, grasshoppers, all came to greet me. They had always been there, but lost in an intellectual fog, engulfed by conflicts that I found so overwhelming, I was blind to everything else around me. I needed nature and a lot of meditation to remind me of my true self.
Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa

With their help, I was able to feel, to hear, to be content, to see clearly again. There was no need to scream anymore, just an enormous desire to be thankful, to accept all and everything, to live a different life where changes were always a possibility and where my problems were like colorful fish sliding gracefully down a stream. Then, slowly, very slowly, the words came back. Like old friends, they enveloped me in their arms, seducing me. I was delighted to be with them, but not all the time. I had become another person. I had realized that I would always love the words, but I should also make time for the silence. With the silence I could learn, find comfort and strength, nourish myself, and listen to my voice from inside. Within the silence I found peace.
Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa


AS PALAVRAS E O SILÊNCIO

Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa
Eu costumava ser viciada em palavras, sempre procurando a perfeita, a mais bonita para transmitir meus sentimentos. Mas há alguns anos, as palavras me falharam. Em um momento de agonia insuportável, elas se tornaram fracas, insuficientes, sem poder. Eu queria gritar minha dor, explodir com minha impotência, esbravejar contra a injustiça da vida e de um mundo que eu não podia e não ia aceitar. Não existiam palavras fortes o suficiente para expressar esses sentimentos.
E quando as palavras não estavam mais disponíveis para mim e eu não tinha ninguém a quem recorrer, escondi-me, encontrando refúgio na natureza, com os sons de bambus roçando um contra o outro, pássaros cantando, folhas caindo numa dança eterna, felizes com o fim ou o começo de suas vidas.
Como uma criança descobrindo o mundo, me voltei para as imagens. Comecei a tirar fotos de jardins, animais, rios. Cactos idosos, montanhas orgulhosas e pedras magníficas se revelaram para mim. Cervos, coiotes, coelhos, cobras, gafanhotos… todos vieram me cumprimentar. Eles sempre haviam estado lá.  Mas perdida em uma neblina intelectual, envolta por conflitos opressivos, eu estava cega para tudo o mais à minha volta. Precisava da natureza e de muita meditação para me lembrar de meu verdadeiro eu.
Yume Japanese Gardens of Tucson,
 photo: Bernadete Piassa

Com sua ajuda, pude voltar a sentir, ouvir, rir, ver claramente de novo. Não havia mais necessidade de gritar, apenas um enorme desejo de agradecer, aceitar todos e tudo, viver uma vida diferente onde as mudanças eram possíveis e onde meus problemas eram como peixes coloridos deslizando graciosamente num regato. Então, devagar, muito devagar, as palavras voltaram. Como velhas amigas, elas me envolveram em seus braços, me seduzindo. Me encantei por estar com elas novamente, mas não as desejava mais o tempo todo. Eu havia me tornado outra pessoa. Dei-me conta de que sempre amaria as palavras, mas também deveria abrir um espaço para o silêncio. Com o silêncio, eu podia aprender, encontrar conforto e força, nutrir-me e ouvir minha voz interior. No silêncio, encontrei a paz.

Thursday, October 22, 2015

ATÉ BREVE MAMÃE (SEE YOU SOON MOM)

Tem uma história do Chico Xavier em que ele estava num avião com muita turbulência e começou a gritar com medo do avião cair e ele morrer. Gritava e pedia ajuda divina. Até que Emmanuel, o espírito que o acompanhava sempre, apareceu e lhe disse, “Chico, se é para morrer, pelo menos morra com dignidade.”  Minha mãe recebeu esse presente divino. Morreu com dignidade. Assim como viveu, saiu deste mundo com elegância, pronta para ir visitar uma amiga. Morreu com planos, com sonhos. No mês de dezembro viria para os EUA me ver. Hoje, meu marido comentou comigo. “Puxa, que pena que ela não vem mais nos visitar. Eu queria poder retribuir a acolhida tão calorosa que ela me deu, na minha única ida ao Brasil”.
E a quantas pessoas ela acolheu... Sua casa estava sempre de portas abertas para os amigos, amigos dos amigos, parentes e até perfeitos estranhos. Quantos netos, bisnetos, sobrinhos, filhos, primos, foram lá passar as férias, sempre sabendo, sem a menor dúvida, que seriam recebidos muito bem na casa de Dona Anna Maria.
Um dia minha irmã comentou que, quando minha mãe morresse, seu enterro teria muita gente porque ela era amiga de quase toda a cidade. Ela era assim, discreta mas popular, chic mas simples. Sua generosidade não tinha tamanho. Com ela, aprendemos a arte da caridade. Desde pequenas a víamos dando um pão para um mendigo, costurando para os pobres, doando  tudo que não precisava mais. 
Foi uma mãe severa, exigindo muito dos filhos. Mas o que exigia, era que fizéssemos o melhor possível. Que tivéssemos ambição, que fôssemos viajar, que não nos conformássemos em viver num mundo pequeno, quando havia tanto para se ver por aí afora. Ela nos passou o amor pelas viagens, pela cultura, pela música. Será impossível ouvir uma ópera sem lembrar dela. Ensinou piano para as filhas, netas e bisnetas. Ensinou muito sobre a vida para os netos que praticamente criou.
Hoje ela se foi e, pra gente, fica o vazio. Sabemos que logo a veremos novamente e estamos felizes pela maneira pela qual ela partiu. Mas a saudade dói e a tristeza nos assalta nos momentos que menos esperamos.  De manhã, ela havia me dito que temos sempre de nos concentrar nas coisas boas. Eu não imaginava que essa seria sua última lição.
Até breve mamãe querida. Descanse em paz.

SEE YOU SOON MOM

There is a story about Chico Xavier on a plane with a lot of turbulence. He was scared that the plane was going to crash and started screaming and begging God for help. Then, Emmanuel, the spirit who always accompanied him, appeared and told him, "Chico, if you are going to die, at least die with dignity." My mother received this divine gift. She died with dignity. She left this world with elegance, like she lived, being ready to go visit a friend. She died with plans and dreams. In December she was coming to the US to see me. Today, my husband said to me. "What a pity that she won’t come to visit us. I wish I could return the warm welcome she gave me in my single visit to Brazil. "
And how many people she welcomed ... Her house was always open to friends, friends of friends, relatives and even perfect strangers. How many grandchildren, great-grandchildren, nephews, daughters, cousins, were there to spend the holidays, always knowing, without a single doubt, that they would be received very well in Dona Anna Maria’s house.
One day my sister said that when my mother died, her funeral would be attended by many people because she was friends with most of the city. She was quiet but popular, chic but simple. Her generosity was enormous. With her, we learned the art of charity. Since we were young we would see her giving bread to beggars, sewing for the poor, donating all that she no longer needed.
She was a severe mother, demanding a lot from her children. But what she demanded above all was that we did our best. She wanted us to have ambition. She wanted us to go traveling; she didn’t want us to accept to live in a small world, when there was so much to see somewhere else. She gave us her love for travel, culture, music. It will be impossible to hear an opera without remembering her. She taught piano to her daughters, granddaughters and great-granddaughters. She taught a lot about life for the grandsons whom she practically raised.
Today she is gone and, for us, there is this big void. We know that soon we will see her again and we are happy for the way she left. But the longing hurts and sadness comes to us in the moments we least expect. In the morning, she had told me that we must always focus on the good things. I did not know that this would be her last lesson.

See you soon my darling mother. Rest in peace.

Friday, August 14, 2015

THE BEAUTY OF THE DESERT (A BELEZA DO DESERTO)

In the evenings, we sit outside in awe, enjoying the warm breeze, listening to the water singing in the fountain, and the birds flying around, involved in deep conversation.  Coming from the East Coast of the US, where the weather was either too cold or too hot, or too muggy, or too cloudy, we never get tired of admiring the dramatic changes in the weather of Tucson, AZ: the rain with strong winds that threatens to blow everything away, the sunset with colors so intense that gives the impression that the sky is on fire, the dry heat that warms the skin but doesn’t make us sweat.  

Some friends ask us if the desert is not monotonous, lifeless. But there is life everywhere: coyotes, javelinas, bobcats, bunnies and ground squirrels roam the desert. Butterflies, dragon flies, and eagles fly around.  Snakes, desert rats, ants of all sizes and shapes, lizards, scorpions, there is a huge amount of insects. And the flowers bloom everywhere. Life is abundant and full of surprises for the ones who stop and admire the splendor of nature and wildlife. But wait, don’t tell this to many people. Let them think that Tucson is hot and boring. We want to keep the beauty of this place so special a secret.

A BELEZA DO DESERTO


À noite, nós nos sentamos lá fora perdidos em profunda admiração enquanto curtimos a brisa quente, ouvimos a água cantando na fonte e os pássaros voando ao redor, envolvidos  numa conversa profunda. Como viemos do leste dos EUA, onde o clima era muito frio, ou muito quente, ou muito úmido, ou muito nublado, não nos cansamos de admirar as mudanças dramáticas no clima de Tucson, Arizona: os temporais com fortes ventos que ameaçam derrubar tudo, o pôr do sol com cores tão intensas que dá a impressão de que o céu está em chamas , o calor seco que aquece a pele mas não nos faz suar.



Alguns amigos nos perguntam se o deserto não é monótono, sem vida. Mas há vida em toda parte: coiotes, javalis, linces, coelhos e esquilos vagam pelo deserto. Borboletas, libélulas e águias voam por toda parte. Cobras, ratos do deserto, formigas de todos os tamanhos e formas, lagartos, escorpiões, há uma enorme quantidade de insetos. E as flores desabrocham em todos os lugares. A vida é abundante e cheia de surpresas para aqueles que param e admiram o esplendor da natureza e da vida selvagem. Mas espere, não diga isso para muitas pessoas. Deixe-os pensar que Tucson é quente e chata. Queremos manter a beleza deste lugar tão especial em segredo.