Sunday, November 22, 2009

Diapers In The Wind (Fraldas ao vento)

When my daughter was a baby and we lived in Brazil in the outskirts of Sao Paulo, we used to dry her diapers in the sun. Afternoons, the maid would wash the diapers in the laundry tub, wring the water from them by hand, and then take them to the yard to hang on the clothesline. Sometimes our German Shepard dog, jealous of our daughter, would get one of the diapers and play with or even eat it. But we never stopped putting the diapers outside. Looking at them, they reminded me of Tibetan Prayer flags, flying in the wind, sending our wishes to the Gods for happiness, long life and prosperity.

Sometimes my daughter, who is already 26 years old and spent 24 years of her life living in the US, asks me how it was when she lived in Brazil, in a house surrounded by trees and where the stars and the fireflies always illuminated the night. I tell her that we had a vegetable garden and a lot of her food came from it. Her soups were not the kind that comes in a jar, bought from a store, but were instead homemade from scratch. She spent her days playing outside, many times naked, having a lot of fun in a small plastic bathtub. She had only a few toys and played in the kitchen with pots and pans. The house had a concrete spiral staircase and, as soon as she learned to walk, she climbed up and down non-stop. We never thought that it was necessary to put a gate in front of the stairs to prevent her from falling. Instead, we taught her how to to use the steps carefully. We never covered the electrical outlets. We just explained to her that she could hurt herself if she touched them.

When I talk with my daughter, I wonder how it is going to be when she has her own baby in the US. Times changed so much. I read the other day in the Internet that in many places (like in the development where I live) it is forbidden to put laundry to dry in the sun. Apparently it is not considered very aesthetically pleasing to leave your laundry hanging outside for everybody to see not to mention the concern of having someone hanging themselves on the clothesline. I am sure that it is also considered of bad taste, if not scandalous, to let a baby play outside naked. When parents have a baby nowadays, they have to “childproof” the house as if the baby would be incapable of learning, little by little, how to be careful and how not to touch things that are dangerous.

I remember my sisters and I playing outside only in our underwear when it rained. I remember we going out with our bikes and being unafraid of talking with strangers. I remember rollerblading on the sidewalks and never giving any thought to suing someone if we slipped on something that had been left on the sidewalk. I remember swimming in swimming pools that never had lifeguards. Were we just reckless, inconsequential, and insane? But we all survived. We had a lot of fun in our childhood. The world that we lived could be considered, by today’s’ standards, totally unsafe. However, we felt safer than any of the kids these days that are taught that life has so many dangers.

I don’t see any more diapers flying in the wind reminding me of freedom. I wonder if one day people will realize that it makes sense to save energy, putting the diapers outside to dry, and will go back to these old habits. I hope I live to see these days.


Quando minha filha era bem pequena e morávamos no Brasil, na periferia de São Paulo, suas fraldas eram postas pra secar no sol. De tarde, a empregada lavava as fraldas no tanque da lavanderia, torcia, e depois as levava para o quintal para pendurar no varal. Às vezes, nosso pastor alemão que tinha ciúmes da nossa filha, pegava uma das fraldas pra brincar ou até pra comer. Mas nunca deixamos de colocar as fraldas lá fora. Vendo as fraldas no varal, eu me lembrava das bandeirinhas tibetanas que tradicionalmente contém preces, balançando ao vento, enviando nossos pedidos a Deus para nos dar felicidade, vida longa e prosperidade.

Às vezes, minha filha, que já está com 26 anos e passou 24 anos aqui nos EUA, me pergunta como era quando ela morava no Brasil, numa casa cercada por árvores e onde as estrelas e os vagalumes sempre iluminavam a noite. Digo que a gente tinha uma horta e a maior parte da comida dela vinha daquela horta. Suas sopas não eram compradas no supermercado, de latas, mas eram feitas em casa. Ela passava os dias brincando fora da casa, muitas vezes nua, divertindo-se numa banheirinha de plástico. Tinha poucos brinquedos e brincava na cozinha com tachos e panelas. Nossa casa tinha uma escada de concreto em forma de espiral e assim que ela aprendeu a andar, subia e descia a escada sem parar. Nunca pensamos que devíamos colocar uma gradinha na frente da escada para que nossa filha não caísse. Em vez disso, nós a ensinamos a subir e descer as escadas com cuidado. Não tampamos todas as tomadas da casa. Em vez disso, explicamos para nossa filha que ela poderia se machucar se pusesse o dedo na tomada.

Quando converso com minha filha, fico pensando como será quando ela tiver um filho aqui nos Estados Unidos. Os tempos mudaram muito. Li outro dia na internete que em muitos lugares (como neste loteamento onde moro) é proibido estender roupas pra secar no varal fora de casa. Aparentemente, não é considerado esteticamente agradável aos olhos para outra pessoa ver sua roupa pendurada no varal, sem se falar do perigo de alguém se enroscar no seu varal e se machucar. Tenho certeza de que também é considerado de mau gosto, ou mesmo escandaloso, deixar um bebê brincando no jardim sem roupa. Hoje em dia, quando nasce uma criança, os pais têm de colocar a casa “à prova de criança", como se o bebê fosse incapaz de aprender, pouco a pouco, como ser cuidadoso e não tocar em coisas que são perigosas.

Lembro-me de que, quando chovia, eu e minha irmães brincávamos no jardim só de calcinhas. Lembro-me que saíamos de bicicleta e não tínhamos medo de falar com estranhos. Lembro-me de patinar nas calçadas sem jamais pensar em processar alguém se escorregasse em algo que havia sido deixado na calçada. Lembro-me de nadar em piscinas que nunca tinham salva-vidas. Será que éramos irresponsáveis, inconsequentes e loucas? Mas todas nós sobrevivemos. E nos divertimos muito na nossa infância. O mundo em que vivemos naquela época pode ser considerado, pelas normas de hoje, totalmente inseguro. No entanto, nos sentíamos muito mais seguras do que qualquer uma das crianças de hoje que crescem ouvindo dizer que a vida é cheia de perigos.

Hoje em dia não vejo mais fraldas balançando ao vento, me lembrando de liberdade. Pergunto-me se as pessoas um dia vão se dar conta de que faz mais sentido economizar energia, colocando as fraldas no varal no sol para secar, e se esses velhos hábitos vão voltar. Espero viver para ver esses dias.


Monday, November 9, 2009

Hope (Esperança)

Twenty years ago, my ex-husband and I were in our apartment in Manhattan watching the news on the TV when we saw the first images of people tearing down the Berlin Wall. In the beginning, we were sure that the police would start shooting at the crowds. However, more and more people crossed to the West while the police did nothing. Suddenly, what we never expected to see in our lifetime happened: the wall came down after more than a quarter of a century separating the East and West sides of Berlin.

Hope. Isn’t that what keeps people alive in the moments of despair? Isn’t that the only reason that compels people to keep fighting, even when it looks like the battle is already lost? Why do some of us have it and some don’t? I don’t think there is an explanation. But we all admire the ones who never give up.

Last week I read on the Internet a story that told me a lot about hope. In South Korea, a woman took her 950th driving test and finally passed. The 68 year old woman, who wanted a license so that she could use a vehicle to sell vegetables and other goods, had been trying to pass the test since 2005. After her 775th failure, she told a newspaper: "I believe you can achieve your goal if you persistently pursue it. So don't give up your dream, like me. Be strong and do your best."

I have been thinking a lot about that woman and many other people who keep trying, even when everybody tells them that they should give up. Aside persistence, what seems to distinguish the ones who insist from the ones who give up is humility. The arrogant usually see failure as a blow to their ego, instead of looking at it as a lesson, and won’t try again because they are afraid of another humiliation. Humble people admit that they did something wrong, or that they just weren’t lucky that time, then put their pride aside and try again.

The South Korean woman also made me think about the unusual people who teach us important lessons. Sometimes, we pay a fortune to take a special class and leave the class with the feeling that we didn’t learn anything. Other times we read a book written by a famous author and finish it wondering what did he mean and how could he have been so confusing. And then, we read the story of a woman who sells vegetables and learn a lot from it. The world is full of mysteries. Our only hope is that, from time to time, we get a glimmer of understanding and inspiration.

Há vinte anos, eu e meu ex-marido estávamos no nosso apartamento em Manhattan, assistindo ao noticiário na televisão, quando vimos as primeiras imagens das pessoas derrubando o Muro de Berlim. No início, ficamos com medo de que a polícia começasse a atirar na multidão. No entanto, mais e mais pessoas continuaram cruzando para o lado de Berlim ocidental e a polícia não fez nada. De repente, o que nunca tínhamos esperado aconteceu: o muro caiu, após mais de um quarto de século separando os lados leste e oeste de Berlim.

Esperança. Não é isso que mantém as pessoas vivas nos momentos de desespero? Não é essa a única razão que leva as pessoas a continuar lutando, mesmo quando parece que a batalha já está perdida? Por que alguns de nós têm esperança e outros não? Nunca li uma explicação. Mas todos nós admiramos os que nunca desistem dos seus sonhos.

Na semana passada, li na internet uma história sobre esperança. Na Coréia do Sul, uma mulher passou o exame de motorista depois de tentar 950 vezes. A senhora, de 68 anos, queria a carteira de motorista para ir de carro vender legumes e outras mercadorias. Estava tentando passar no teste desde 2005. Depois de ter fracassado 775 vezes, disse a um jornalista: "Acredito que qualquer um pode atingir seu objetivo se for persistente. Portanto, faça como eu e não desista de seu sonho. Seja forte e dê o melhor de si mesmo."

Tenho pensado muito sobre essa mulher e muitas outras pessoas que continuam tentando, mesmo quando todo mundo diz que deviam desistir. Além de persistência, o que parece separar os que insistem dos que desistim é a humildade. Os arrogantes normalmente vêem o fracasso como um duro golpe para seu ego, em vez de encará-lo como uma lição, e não tentam novamente com medo de outra humilhação. As pessoas humildes admitim que fizeram algo errado, ou que simplesmente não tiveram sorte daquela vez, deixam o orgulho de lado e tentam novamente.

A sul-coreana também me fez pensar sobre essas pessoas inusitadas que nos ensinam lições importantes. Às vezes, pagamos uma fortuna para ter uma aula especial e saímos de lá com a sensação de que não aprendemos nada. Outras vezes, lemos um livro escrito por um autor famoso e acabamos de ler sem entender o que ele quis dizer e como pôde ter sido tão confuso. E então, lemos a história de uma mulher que vende legumes e aprendemos tanto com ela. O mundo é cheio de mistérios. A nossa única esperança é de que, vez por outra, sejamos brindados com alguma compreensão e inspiração.

Photo: AP agency