Wednesday, July 22, 2009

The dark cloak (O véu negro)


Today I was reading an interview with the great Brazilian author, Lygia Fagundes Telles. In the interview, the author recalls how her book, The Girls, written during the time of censorship in Brazil, managed not to be censored even though one of the main characters was a revolutionary. Telles explains that the censor got bored after reading 20 pages of her book and didn’t continue. That is how The Girls escaped the hands of the censors and was published. The book is one of the best-known works from the famous author and tells the story of three girls who meet in a boardinghouse and go on to explore different paths of life.

Telles’ story reminded me of the times of the dictatorship in Brazil that not only affected the arts and literature, but also impacted the entire country. For the ones that didn’t experience life in these hard times, it is worth remembering that Brazil was under a dictatorship for 20 years. In 1964, the military ousted the president Joao Goulart and took power. From then on, the country was governed by a succession of generals who banished all forms of protest and, using torture, assured that all rebellion was under control.

Times were difficult. Fear covered the nation with a dark cloak. Politicians and artists were exiled. The press was under censorship. The newspapers couldn’t publish any news of the countless young people who were thrown in jail, tortured, and disappeared to be never seen again. Most of the newspapers had a censor who went there daily to read the entire edition of the paper and cut anything that was considered remotely revolutionary. O Estado de S.Paulo, one of the biggest newspapers of Brazil, started printing poems of the Portuguese poet Luís Vaz de Camões to replace the articles in the newspaper that had been censored. Soon, the newspaper had a lot of poems in its daily edition, and the readers understood what was going on.

While the arts were being hit hard, the economy was in even worse shape. In 1980, inflation hit 77.2%. In 1983, it had soared to 200%. The Brazilian financial system was in total disarray.

As the years passed, the generals allowed a few liberties. But they were still very much in control. When the general João Baptista Figueiredo was “elect” not by popular vote, but by the Congress in 1979, he was asked what he would do with the ones that were against the liberalization of the country. He answered: I will jail, I will hit, I will trash them! Brazil was far from being a democracy.

Only in 1985, 20 years after the military coup, Tancredo Neves, a civilian president, was elected. From there on, Brazilian democracy flourished along with its economy. Nowadays, to think that a censor could get a pen and cross out pages and pages of an author’s book is something totally out of the question. The censorship is gone, but its ghost still scares the hearts of people who lived in that dark times.


O VÉU NEGRO

Hoje eu estava lendo uma entrevista com a grande escritora brasileira, Lygia Fagundes Telles. Na entrevista, a escritora recorda como o seu livro, As Meninas, escrito durante o tempo da censura no Brasil, conseguiu não ser censurado, embora um dos principais personagens fosse uma revolucionária. Lygia explica que o censor começou a ler o livro, leu até a página 20, achou muito chato e não foi adiante. Foi assim que As Meninas escapou das garras da censura e foi publicado. O livro, um dos trabalhos mais conhecidos da famosa autora, narra a história de três meninas que moram num pensionato e acabam explorando diferentes caminhos de vida.

A história da escritora me fez lembrar dos tempos da ditadura no Brasil, que não só afetaram as artes e a literatura, mas todo o país. Para os que não viveram nesse período difícil, é importante lembrar que o Brasil foi uma ditadura militar durante 20 anos. Em 1964, os militares afastaram o presidente João Goulart e tomaram o poder. Depois disso, o país foi governado por uma sucessão de generais que baniram todas as formas de protesto e, utilizando a tortura, asseguraram que todos os descontentes estavam sob controle.

Foram tempos difíceis. O país estava coberto por um manto escuro. Políticos e artistas foram exilados. A imprensa estava sob censura. Os jornais não podiam publicar notícias dos inúmeros jovens que eram atirados na prisão, torturados, e desapareciam para nunca mais serem vistos. A maioria dos jornais tinha um censor que ia diariamente ler todas as notícias e proibia tudo que fosse considerado remotamente revolucionário. O Estado de S.Paulo, um dos maiores jornais do Brasil, começou a imprimir poemas do poeta português Luís Vaz de Camões, para substituir os artigos que haviam sido censurados. Logo, o jornal tinha um monte de poemas na sua edição diária, e os leitores perceberam o que estava acontecendo.

Enquanto as artes eram duramente atingidas, a economia estava ainda em pior forma. Em 1980, a inflação atingiu 77,2%. Em 1983, subiu até 200%. O sistema financeiro brasileiro estava numa desordem total.

À medida em que os anos passaram, lentamente os generais começaram a promover a abertura política. Mas o controle ainda era imenso. Quando o general João Baptista Figueiredo foi "eleito" não pelo voto popular, mas pelo Congresso em 1979, a imprensa quis saber o que ele faria com os que eram contra a liberalização do país. Ele respondeu: eu prendo, eu bato, eu arrebento! O Brasil estava longe de ser uma democracia.

Só em 1985, 20 anos após o golpe militar, Tancredo Neves, um presidente civil, foi eleito. A partir daí, a democracia brasileira floresceu, juntamente com a economia. Hoje em dia, pensar que um censor possa pegar uma caneta e riscar páginas e páginas de um livro é inconcebível. A censura desapareceu, mas seu fantasma ainda assombra as pessoas que viveram naquela época de escuridão.

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