Saturday, May 30, 2009

Love (Amor)



What are you going to remember one day? The fights that we had, the tears that we shed, the heavy silence after we had said words that we soon regretted? Time has a way of erasing the bad feelings. After awhile, we remember only the laughter, the moments of intimacy, the complicity.



I will always remember going up river with you. The day was warm, the trees along the Neshaminy still, watching silently as we glided by them, our paddles parting gently the waters of the river. From time to time we stopped paddling to listen to the birds and we thought that our hearts were going to melt with so much happiness. That day I wanted to know the name of your canoe. “Ina Maka – Mother Earth in Lakota -”, you said.



I remember traveling up the Amazon River with you. We had decided to go by boat from Belem to Manaus, in a trip that would take about 3 days. The boat had a large deck where the travelers hung their hammocks to sleep. We shared a large hammock. Whenever someone in a hammock rocked, all the hammocks rocked for there wasn’t much room. During the day, the hammocks were folded. Then, we watched small kids in their canoes, approaching the boat to ask for food. The travelers threw bread in plastic bags and the kids paddled frantically to get to them before the river swallowed the food.



I remember you telling me that you would support me no matter what. And I also remember telling you that I would take care of you after your surgery. I remember our long walks after dinner to discuss about the kids. And I also remember dancing with you after the dishes were done.



But wait, all these remembrances aren’t in fact only from you. They are from other men of my life as well. Now, you all seem to merge in my mind, composing a beautiful quilt where all my lovers left their footprints. Life managed to put all of you together and now, when I think about the past, I remember only the happiness, not the names, the harmony, not the disagreements. Let’s not fight today, okay? Tomorrow we won’t remember why we fought anyway. Let’s take Ina Maka to the river and let Mother Earth works her magic on us.




AMOR


Do que você vai se lembrar um dia? Das brigas que tivemos, das lágrimas que derramamos, do silêncio pesado depois que nos acusamos de coisas das quais logo nos arrependemos? O tempo tem um talento especial para apagar as lembranças ruins. Depois de alguns anos, nós nos lembramos apenas das risadas, dos momentos de intimidade, da cumplicidade.

Vou me lembrar sempre da gente subindo o rio juntos. O dia estava quente, sem vento. As árvores à beira do Neshaminy estavam imóveis, acompanhando silenciosamente a nossa passagem, ouvindo nossos remos partindo suavemente as águas do rio. De vez em quando parávamos de remar para ouvir os cantos dos pássaros e nesses momentos pensávamos que nossos corações podiam até explodir de tanta felicidade. Naquele dia perguntei o nome da sua canoa. "Ina Maka - Mãe Terra em Lakota", você disse.

Eu me lembro de nós viajando pelo Rio Amazonas. Tínhamos decidido ir de barco de Belém para Manaus, mesmo sabendo que a viagem demoraria mais ou menos três dias. O barco tinha um deck imenso onde os viajantes penduravam as redes para dormir. A nossa rede era de casal. De noite, sempre que alguém balançava em uma das redes, todas as outras redes balançavam também, já que não havia muito espaço. Durante o dia, as redes eram dobradas. Logo, algumas crianças pequenas, remando canoas bem rudimentares, começavam a se aproximar do barco para pedir comida. Elas batiam na boca e emitiam sons imitando índios e os sons ecoavam pelo rio e pela mata. Os viajantes colocavam pedaços de pão em sacos plásticos e atiravam na água. As crianças remavam o mais rápido que podiam para pegar os sacos antes que o rio, sempre faminto, devorasse a comida.

Eu me lembro de você prometendo que ficaria sempre ao meu lado, não importa o que acontecesse. E me lembro de eu lhe dizendo que ia cuidar de você depois da sua cirurgia. Lembro-me das nossas longas caminhadas depois do jantar, quando falávamos sobre os problemas dos nossos filhos. E me lembro também de nós dançando na sala, depois que tínhamos jantado e lavado os pratos.

Mas espere, todas essas lembranças não são, na verdade, só de você. Também são lembranças de outros homens da minha vida. De repente, vocês todos parecem se fundir na minha mente, formando uma colcha linda de retalhos onde todos os meus amantes deixaram suas pegadas. A vida juntou todos vocês na minha memória e agora, quando penso no passado, lembro-me apenas da felicidade, e não dos nomes, da harmonia, e não das brigas. Não vamos brigar hoje, está bem? Se brigarmos, amanhã nem vamos nos lembrar por que brigamos…. Vamos levar Ina Maka para o rio e deixar que a Mãe Terra nos envolva no seu manto mágico.

Friday, May 29, 2009

Going With Dignity (Morrendo Com Dignidade)



Today I want to give you some advice: if you are thinking about killing yourself but aren’t 100% sure, don’t go to Japan. I read on the Internet last week about this guy who walked to a bridge apparently all ready to kill himself at a spot where others were already successful. This guy was there for four hours threatening to jump. Finally, an old man came up behind him, shook his hand, and pushed him off the bridge. Now, do you see what I mean? If you are not totally sure that you want to die, avoid a place where people might force you to die, in case you are having second thoughts. Instead, try going to Brazil, where people are very likely to start crying once you tell them your problems, and you might end up consoling them instead of jumping.

Last week I was thinking a lot about death. Not because I am a morbid type of person. I just happened to find myself pondering the subject. I always thought that I would like to die when I turned 70ish, with my mind and my body still working in synchronicity. Now that I am 55, I started to have second thoughts: isn’t a 70 years old person too young to die? Shouldn’t I wait until I get to be 80 years old? I consider the possibilities and then I laugh at myself. Who am I to choose the moment of my death? Didn’t I learn yet that death, like life, likes to surprise us when we least expect?

I see all these Hollywood stars who work so hard to keep their bodies fit, trying to outsmart death, and don’t seem to pay attention to their minds. They will die one day, paralized in botox, as if they were still in their 30th...At the same time, I see those people who have arthritis, bladder problems, diabetes, all kinds of health issues, and still conserve their beautiful minds intact. What would you like to lose first: your body or your mind?

Sometimes I walk past a retirement home and see lots of old people sitting outside. I imagine they talking about their aches, their kids and grand-kids, their past. They probably live off their memories. The highlight of their day is a visit to the doctor or the discovery that there will be a new flavor of jello for lunch. The future reserves a succession of days exactly like this one, while the past looks so inviting…

There are people who get a close call from death but fight to stay alive. Then, there are others who spend their lives waiting for death, saying that they are too old for this and that, and not even noticing everything that they are missing because they just don’t have the will to try. I wonder what makes someone love life and someone so afraid of it. Someone celebrates lives, while someone else greets death with open arms. Old age seems to bring many questions to mind. For most of them, we have no answers.

Last week Maria Amelia Lopez, from Spain, died. Maria Amelia was the oldest blogger in the world. She was 97 years old when she died and had been blogging since 2006, when her grandson created a site for her as a present for her 95th birthday. She wrote about her memories, dreams, sadness, happiness, and about life in general. Her blog received a lot of attention with more than 1.7 million hits. When she started blogging, newspapers from all over the world celebrated her courage of writing. Last week, newspapers from all over the world lamented her death.

If I could choose, I would choose to die like Maria Amelia, with all my witts intact. I wouldn’t want to die pushed off a bridge by someone who thought that I had disturbed the traffic for too long. I would like to die with grace, thinking that my life had been worth living. Because, above all, I believe in dignity.


MORRENDO COM DIGNIDADE

Hoje eu quero lhe dar um conselho: se você está pensando em se matar, mas não está totalmente convencido, não vá para o Japão. Li na internete na semana passada uma história sobre um cara que foi para uma ponte, aparentemente já usada com sucesso por outros suicidas potenciais, e ficou lá quatro horas ameaçando se atirar. Finalmente, um velho veio por trás dele, estendeu a mão para cumprimentá-lo, e o jogou pra fora da ponte. Entende o que eu quero dizer? Se você não está totalmente seguro de que quer mesmo morrer, evite um lugar onde as pessoas poderiam forçá-lo a se matar, caso você resolva no último minuto que não está tão convencido assim. Em vez disso, vá para o Brasil onde as pessoas provavelmente vão até chorar depois que você falar dos seus problemas, e você pode acabar consolando-os em vez de pular da ponte.

Na semana passada eu estava pensando muito sobre a morte. Não que eu seja um daqueles tipos de pessoas mórbidas. Por acaso, me deparei comigo mesma ruminando sobre o assunto. Eu sempre pensei que gostaria de morrer quando fizesse 70 anos e ainda tivesse com minha mente e meu corpo trabalhando em sintonia. Agora que já fiz 55, comecei a me perguntar: será que uma pessoa de 70 anos não é muito jovem para morrer? Eu não deveria esperar até chegar aos 80? Penso nessas coisas e rio de mim mesma. Quem sou eu para escolher o momento da minha morte? Até hoje não aprendi que a morte, como a vida, gosta de nos surpreender quando menos esperamos?

Vejo todas essas estrelas de Hollywood que malham tanto para manter o corpo em forma, tentando ser mais espertas do que a morte, e parecem se descuidar da mente. Elas vão morrer um dia paralisadas em botox, como se ainda tivessem 30 anos. ... Ao mesmo tempo, vejo as pessoas que têm artrite, problemas de bexiga, diabetes, tantos outros problemas de saúde, e ainda conservam as suas mentes intactas. O que você gostaria de perder primeiro: o seu corpo ou a sua mente?

Às vezes eu passo na frente de um asilo e vejo muitos idosos sentados na porta. Imagino que estejam conversando sobre suas dores, seus filhos, seus netos, seu passado. Provavelmente vivem das suas lembranças. O ponto alto do dia deles é uma visita ao médico ou a descoberta de que na hora do almoço será servido um sabor diferente de gelatina. O futuro reserva uma sucessão de dias exatamente como um presente, enquanto o passado parece tão convidativo ...

Há pessoas que quase morrem, mas resolvem lutar para permanecer vivas. Depois há aquelas que passam a vida esperando a morte, dizendo que são muito velhas para isto e aquilo, e nem percebem tudo o que estão perdendo porque simplesmente não experimentam nada de novo. Eu me pergunto o que faz alguém amar a vida enquanto outra pessoa tem medo dela. O que faz alguém querer aproveitar a vida, enquanto outra prefere esperar a morte de braços abertos. Pensar na velhice deixa a gente cheia de perguntas… Para a maioria delas, não temos respostas.

Há pouco tempo, a espanhola Maria Amélia Lopez faleceu, com 97 anos. Maria Amélia era a blogueira mais velha do mundo. Tinha iniciado seu blog em 2006, quando seu neto criou um site para ela como um presente de aniversário para seus 95 anos. Ela escrevia sobre o que lembrava do passado, seus sonhos, tristezas, felicidades, e sobre a vida em geral. Seu blog chamou a atenção de muita gente e mais de 1,7 milhão de pessoas passaram a lê-lo. Quando Maria Amélia começou a escrever, os jornais de todo o mundo homenagearam a sua coragem. Quando ela morreu, jornais de todo o mundo lamentaram a sua morte.

Se eu pudesse escolher, gostaria de optar por morrer como Maria Amélia, com minha capacidade intelectual intacta. Não quero morrer empurrada duma ponte por alguém que achasse que eu tinha interrompido o tráfego por muito tempo. Gostaria de morrer com elegância, pensando que minha vida tinha valido a pena. Pra mim, não existe nada mais importante do que a dignidade.

Sunday, May 24, 2009

The Story Thief (A Ladra de Histórias)




Where do the stories come from? Sometimes my head is full of them. Sometimes it is empty and I fear that I won’t ever be able to tell a story again. The stories have been with me since I was a child so I should know, by now, that they will always come back. But there is always the dread that that was the last time, the last story of my life.

I am a story thief. If someone tells me just one word that I find interesting, that word might give birth to a story. I hear about one dwarf passing by, and he becomes a dwarf chasing a woman in a hotel with a sword. I see a painting that I admire, and there comes a story about a woman who fell in love with a painting but couldn’t ever love a man. I see someone running on a beach, and I imagine writing a story about a woman escaping from the husband who she never had. I dream with a babysitter scolding a child, and I imagine a story about a mother who fed her daughter only crumbs of life.

When my daughter was young, she begged me to tell her stories from my mouth. Not from a book, but from my mouth like she said. And I would tell her a story about a girl who put all her worries in a heavy bag, dragged the bag to a canoe, and paddled almost to the end of the ocean. There, she threw the bag in the sea to get rid of her worries. There was also a story about monkey Simon. He had his special song, which I had composed only for him. Monkey Simon was full of mischief and would always be hanging from a tree, making fun of everybody.

I can tell you a story today. Do you want to hear? Once upon a time a woman met a tree that was very vain. In the winter, the tree dressed only in white. In the spring, she favored light green. In the summer, she could be seen in dark shades of green. And in the autumn, she dressed herself in a profusion of colors, from yellow to orange to brown and so many mid-tones in between. The tree invited the woman to sit on her lap. With her branches, she combed the woman's hair. With her leaves, she made the wind blow a soft kiss on the woman’s face. Then, she whispered to the woman many stories about a time when the trees would talk and the human beings would listen to them. A time where all lived in peace. The woman felt her heart becoming larger and larger. And when she went home, her soul was full of stories.


You see, stories are like that. They come out of nowhere. Their only purpose is to enchant us and make us realize that the world would be too dull without them. We can’t live only on reality. From time to time we need to escape to the world of our imagination so we can recharge our hearts and our spirits.


A LADRA DE HISTÓRIAS

De onde é que as histórias vêm? Às vezes, minha cabeça está cheia deles. Às vezes está vazia e tenho medo de que nunca mais serei capaz de contar uma história. As histórias me acompanham desde minha infância e eu já deveria saber que elas vão e voltam. Mas sempre há o receio de que essa foi a última vez que escrevi, que essa era a última história que eu tinha para contar.

Eu sou uma ladra de histórias. Se alguém me diz uma só palavra que acho interessante, essa palavra pode dar origem a uma história. Ouço alguém falar de um anão que estava passando pela rua e ele se transforma num anão com uma espada na mão, perseguindo uma mulher no corredor de um hotel. Vejo um quadro que admiro, e lá vem uma história sobre uma mulher que se apaixonou por um quadro, mas que não podia jamais amar um homem. Vejo alguém correndo pela praia e imagino uma história sobre uma mulher fugindo de um marido que ela nunca teve. Sonho com uma babá xingando uma criança, e imagino uma história sobre uma mãe que alimentava a filha com migalhas de vida.
Quando minha filha era pequena, ela costumava pedir que eu lhe contasse histórias da minha boca. Não de um livro, mas de minha boca como ela dizia para explicar que queria ouvir as histórias que eu inventava. E eu lhe contava uma história sobre uma menina que colocava todos os seus medos num saco bem pesado, arrastava o saco até uma canoa, colocava o saco na canoa e remava quase até o fim do oceano. Lá, ela jogava o saco no mar e se livrava de todos os seus problemas... Havia também a história do macaco Simão. Ele tinha uma música especial, que eu tinha composto para ele. Macaco Simão era muito danado e passava a vida pendurado numa árvore, caçoando de todo mundo.

Eu poderia lhe contar uma história. Quer ouvir? Há muitos anos uma mulher conheceu uma árvore que era muito vaidosa. No inverno, a árvore vestia-se apenas de branco. Na primavera, ela preferia um verde clarinho. No verão, era sempre vista usando verde escuro. E no outono, ela se enfeitava com uma profusão de cores, indo do laranja ao amarelo, passando pelo marrom e tantos outros semi-tons. A árvore convidou a mulher para se sentar no seu colo. Com seus galhos, ela penteou o cabelo da mulher. Com suas folhas, ela fez o vento soprar um beijo suave no rosto da mulher. Então, ela sussurrou para a mulher muitas histórias sobre uma época em que as árvores falavam e os seres humanos podiam ouvi-las. Um tempo em que todos viviam em paz. A mulher sentiu seu coração ficar mais e mais cheio. E quando ela chegou em casa, sua alma estava povoada com histórias.
Você vê, as histórias são assim. Eles saem do nada. A sua única finalidade é de encantar-nos e fazer-nos perceber que o mundo seria muito monótono sem elas. Não podemos viver apenas na realidade. De vez em quando temos de escapar para o mundo da nossa imaginação, para que possamos recarregar nossos corações e nossos espíritos.

Family Bonds (Laços de Família)


I say good night to my daughters, go to my room and start hearing their voices. They had said good night to me as well, but I know that for at least two more hours they will be talking. This is a long weekend, with a holiday on Monday, and my 26 years old daughter is visiting. She is sharing a room with her 24 years old sister. Even though they talk on the phone almost every day, they still have a lot to catch up. Listening to them, I am reminded of my sisters and how we treasured so much these private conversations in the dark, when we could tell secrets that we wouldn’t dare to disclose during the day.

My four sisters and I are very good friends. But when we were growing up, we used to fight a lot. One day I grabbed a chicken at the pen to chase my older sister who was terrified of birds. If she were outside and happened to see a pigeon, a chicken, or anything else with wings, she was capable of running on the street in front of cars, putting her life in danger, only to escape her most dreadful enemy. That day, I don’t remember what she had done to annoy me. I do remember running after her through the house with the chicken in my hands, until she climbed on the highest tree of the backyard from which, later on, she was unable to get down. Of course, my mother wasn’t very happy with me when she heard the story…

There were many fights, but there were so many more moments of joy. In the nights that my parents went out to dinner, we did all sorts of mischief. We took turns lying in a hammock so that the others could swing it very high, trying to reach the ceiling. When we became teenagers, the boys came and serenaded us, or threw stones at the windows of the house to catch our attention, and we all agreed that we would never tell our parents. I remember the moments of complicity, the moments when we were unhappy and comforted each other, the moments of extreme pleasure that we just had to share.

Of course, all these moments had to be shared with our cousins as well. Dozens of them. We would travel with our cousins, have sleepovers with our cousins, play and fight with our cousins. No lunch was complete if at least one of our cousins wasn’t there to share. Our family was like a big clan where nobody was ever left alone to enjoy a moment of solitude. Everything was done together with our relatives.

But, if we happened to be alone one evening, my sisters and I would find extremely comforting to talk for hours and hours into the night. We had so much to tell that sometimes the morning would come and we were still awake, discussing our dreams. Listening to the voices of my daughters on the other room, I am happy to realize that the bonds of sisterhood remain strong generation after generation.



LAÇOS DE FAMÍLIA


Falo boa noite para minhas filhas, vou para o meu quarto, e começo a ouvir as vozes delas. Elas também tinham me dado boa noite, mas sei que não vão dormir tão cedo; pelo menos por mais duas horas ficarão conversando. Este é um fim de semana prolongado, com um feriado na segunda-feira, e minha filha de 26 anos veio nos visitar. Ela está dividindo o quarto com a irmã de 24 anos. As duas se falam ao telefone quase todos os dias, mas ainda têm muito assunto pra conversar. Ouvindo-as, eu me lembro das minhas irmãs e de como nós adorávamos essas conversas privadas, no escuro, quando podíamos contar segredos que não nos atrevíamos a compartilhar durante o dia.

Eu e minhas quatro irmãs somos muito amigas. Mas, quando éramos pequenas, costumávamos brigar bastante. Um dia eu peguei uma galinha no galinheiro para assustar a minha irmã mais velha, que tinha pavor de qualquer tipo de aves. Se ela estivesse na calçada e visse um pombo, uma galinha, ou qualquer outra coisa com asas, era capaz de correr pra rua na frente de carros, colocando sua vida em perigo, só para fugir da sua inimiga mais temível. Não me lembro o que ela tinha feito naquele dia pra me chatear. Mas me lembro muito bem de persegui-la com a galinha nas mãos pela casa toda. Desesperada, ela acabou subindo na árvore mais alta do quintal da qual, mais tarde, era incapaz de descer. Naturalmente, a minha mãe não ficou muito feliz comigo quando soube da história ...

Nós brigávamos muito, mas tínhamos também muitos momentos alegres. Nas noites em que meus pais saíam para jantar, fazíamos todo o tipo de bagunça. Às vezes uma de nós deitava em uma rede para que as outras a balançassem com toda força, até que a rede batesse no teto. Quando nos tornamos adolescentes, os meninos atiravam pedras nas janelas da nossa casa para chamar a nossa atenção e depois faziam serenatas. Nós todas jurávamos que nunca íamos dizer nada disso para nossos pais... Lembro-me dos momentos de cumplicidade, dos momentos em que nos sentíamos infelizes e confortávamos uma a outra, dos momentos de felicidade que, evidentemente, achávamos impossível não compartilhar com as outras irmãs.

Naturalmente, todos esses momentos também tinham que ser compartilhados com os nossos primos. Dezenas deles. Nós viajávamos com nossos primos, dormíamos nas casas deles ou eles na nossa, brincávamos e brigávamos com nossos primos. Nenhum almoço era completo se pelo menos um deles não estivesse presente. Nossa família era como um grande clã onde ninguém podia ficar sozinho para desfrutar de um momento de solidão. Tudo tinha que ser feito com os nossos pais, irmãs, primos e tias.

Mas, se por acaso estivéssemos sozinhas uma noite, eu e minhas irmãs adorávamos conversar no escuro por horas e horas. A gente tinha tanta coisa pra falar que às vezes o dia amanhecia e ainda estávamos acordadas, confidenciando nossos sonhos e desejos. Ouvindo as vozes das minhas filhas no quarto ao lado, fico feliz de perceber que os laços de família continuam fortes e passando de geração em geração.

Thursday, May 21, 2009

The Country Of My Memories (O País Das Minhas Lembranças)





Today I was reading on the Internet an article from a Swedish woman who, for some reason, decided to write a blog about the Brazilian way of life. In the article, among many other explanations about Brazilians, she says that Brazilians love to drink, but that it is very embarrassing for a Brazilian to be caught drunk. Now, that phrase made me think. How come, being Brazilian, I had never noticed that? I remember very well when a few years ago I went to a wedding in Rio de Janeiro. A cousin of mine got really drunk. Since the party was in a club, our aunts took her to the garden, made her lay down on a wooden bench, and covered her with a tablecloth for the lack of anything better to use. Being Brazilians and loving to laugh at everything and everyone, my other cousins took pictures of their drunken cousin and the pictures ended up circulating with the other pictures of the wedding. There was also a New Years’ party in which at least five of my relatives got drunk and one of them ended up leaving the club barefoot, escorted by a waiter. And let us not forget when a law was implemented in Brazil, stating that nobody would be allowed to drive after consuming a single drop of alcohol. The jokes at the time were that the Brazilian president was so drunk that he hadn’t seen the law that he was signing…Embarrassed by too much drinking? Hmmm… I guess the blog’s author mistook Brazil for another country.

You usually don’t see many Brazilians writing blogs about the Brazilian way of life. Of course, most of them are having a lot of fun just being Brazilians and would not waste their time writing about the subject. But I do think that people who are not from a country and write about it, should do at least a bit of research.

It is very easy to distort facts when someone doesn’t pay enough attention to the subject or forget details about it. I am the first one to admit that, being Brazilian but living for almost 24 years in the US, I am constantly telling lies about my country. I told my kids that in the Brazilian movie theaters there weren’t popcorns, sodas or other foods for sale. Well, it turned out that this was true 20 years ago but now the Brazilian movie theaters are very much like their American counterparts.

I really enjoyed the book “My Invented Country”, by Isabel Allende. In it, the author talks about Chile but, being an emigrant, she talks about the Chile that she left many years ago and probably does not exist anymore. I am aware that the Brazil I remember is gone for good and that the country that exists now is somehow foreign to me. So, when I go to Brazil and ask for a coffee in a restaurant and the waiter brings the coffee in a tiny cup, with a lovely doily in the saucer, this brings me a sense of comfort. I know that these small details will never change and will continue to make Brazil the special country that it is.


O PAÍS DAS MINHAS LEMBRANÇAS

Hoje eu estava lendo na internete um artigo de uma sueca que, por alguma razão, decidiu escrever um blog sobre a maneira de viver dos brasileiros. No artigo, entre muitas outras explicações sobre brasileiros, ela diz que os brasileiros gostam de beber, mas que é muito vergonhoso para um brasileiro ser pego bêbado. Essa afirmação me deixou pensando. Como é que, mesmo sendo brasileira, nunca tinha reparado nisso? Lembro-me muito bem quando, há alguns anos, fui a um casamento no Rio de Janeiro. Minha prima ficou completamente bêbada. Já que a festa era num clube, minha tia levou-a para o jardim, deitou-a num banco de madeira, e cobriu-a com uma toalha por falta de algo melhor para usar. Sendo brasileiros e não podendo perder uma oportunidade para fazer uma brincadeira, meus outros primos tiraram uma porção de fotos da prima bêbada e as fotos acabaram circulando com as outras fotos do casamento. Também me lembro de uma festa de Ano Novo na qual pelo menos cinco dos meus parentes ficaram bêbados e uma das minhas primas acabou saindo do clube descalça, nos braços de um garçom. E não podemos de nos esquecer do que aconteceu quando aprovaram uma lei, no Brasil, afirmando que ninguém poderia dirigir depois de consumir uma única gota de álcool. As piadas, naquela época, eram de que o presidente brasileiro estava tão bêbado que não tinha visto direito o que estava assinando ... Com vergonha de beber demais? Hummm ... Acho que a autora do blog confundiu o Brasil com outro país.
Normalmente não vemos muitos brasileiros escrevendo blogs sobre a maneira de viver dos brasileiros. Naturalmente, a maioria deles está ocupada se divertindo, e não vai perder tempo escrevendo sobre o assunto. Mas acho que as pessoas que não são de um país e resolvem escrever sobre ele, deveriam pelo menos se informar um pouco sobre aquele país.

É muito fácil distorcer os fatos quando alguém não presta muita atenção sobre um assunto ou esquece detalhes dele. Sou a primeira a admitir que, sendo brasileira mas morando há quase 24 anos nos Estados Unidos, estou constantemente contando mentiras sobre o meu país. Disse para meus filhos que nos cinemas brasileiros não havia pipoca, refrigerantes e outras comidas pra vender. Bem, isso era verdade há 20 anos, mas agora os cinemas brasileiros são muito parecidos com os americanos.

Gostei muito do livro "O Meu País Inventado", de Isabel Allende. Nele, a autora fala sobre o Chile, mas sendo uma imigrante, o Chile que descreve é um Chile que existia há muitos anos e, provavelmente, não existe mais. Reconheço que o Brasil das minhas memórias não existe mais e que o Brasil atual é como se fosse um estrangeiro para mim. Mas, quando vou ao Brasil, e peço um café num restaurante e o garçom traz o café numa xicrinha com uma toalhinha, isso me deixa muito feliz. Sei que esses pequenos detalhes, que nunca mudarão, vão sempre continuar a fazer com que o Brasil seja o país especial que ele é

Wednesday, May 20, 2009

Stuff (Coisas)


One man stopped by and picked up an old rocking horse for small children, the type that is not even manufactured anymore and would nowadays be considered a safety hazard. Another stopped and picked an old trunk, all rusted, which in the past had been used to store movies. One woman hurried out of her car, maybe afraid that someone would see her, and took a bag with old stuffed animals. Then two metal collectors arrived and started separating everything that was metal. All through the night they came: old and young people, men and women, by themselves or with their families, driving nice cars or cars that had seen better days, all of them trying to find something valuable in the garbage.

Yesterday was bulk pickup day in my friend’s neighborhood, which means that people are able to put out all those large items the garbage collectors would not normally collect. I was helping my friend to clean his house and put the garbage out at the curb, but sometimes I just had to spy on the parade of people who stopped to pick through the junk. In the evening, the pile of trash was huge. When the garbage truck arrived in the morning, the pile had shrunk to half of its size. My friend's house is located close to Philadelphia, in the US, one of the wealthiest countries in the world. And still there were people sorting through his trash…

Stuff! Some of us have a lot. Some of us don’t have enough. The ones who don’t have enough complain about the lack of it. The ones who have too much (and still don’t think they have enough) sometimes don’t have room for all of their belongings anymore. So, they throw stuff away or organize yard sales.

Not being American and not being raised here, I never understood the concept of yard sales where people arrange everything they don’t want anymore on their front garden and put the stuff up for sale. It seemed strange to me to see all sort of knickknacks that should belong, in fact, in the garbage being bought by folks who, in the majority of cases, would not even use the items. What could someone do with an old record player that didn’t play anymore, with an old lamp that was bent and colorless, with books about cars from the 1950s? And, still, I saw all these items being sold.
I deeply sympathize with the people who need to rummage through someone else’s garbage because they have no money to buy at the stores, and with the ones who go to yard sales because that is all they can afford. However, folks who buy compulsively, then put their things up for sale, then buy more things, then run out of space and need to move to a bigger house so they can store still more things, then sell these things again… these people are a mystery to me.
Growing up in Brazil, where big part of the population doesn’t have much money, I got used to the idea of not accumulating stuff and giving it away to charity if I had too much. It puzzles me to think that some people put a cup for sale in a yard sale for 5 cents instead of donating it to an association that would help others in need, and that the same person then goes to a Starbucks and pays $2.50 for a cup of coffee without thinking twice. But, again, not everyone grew up with kids knocking on their doors and begging for food, smiling sadly when they were given a piece of bread.


COISAS
Um homem parou e pegou um cavalo velho de pau de brinquedo, do tipo que nem é fabricado mais e que agora é até considerado perigoso. Outro homem pegou um baú velho, todo enferrujado, que tinha sido usado para armazenar filmes. Uma mulher saiu rápido do carro, quem sabe com medo de que alguém a visse, e pegou uma sacola com bichos de pelúcia. Mais tarde, dois catadores de metais chegaram e começaram a separar tudo o que era metal. Durante a noite inteira eles apareceram: velhos e jovens, homens e mulheres, sozinhos ou com a família, dirigindo carros não muito velhos ou carros quase caíndo aos pedaços, todos tentando encontrar algo valioso no lixo.

Ontem foi dia de coleta de lixo na vizinhança do meu amigo. Era um dia especial, porque podia-se jogar no lixo coisas maiores que normalmente os lixeiros não levam. Eu estava ajudando meu amigo a limpar sua casa e colocar o lixo fora, na calçada. Mas às vezes não resistia e interrompia o trabalho para observar o desfile de pessoas que paravam para vasculhar o lixo. À noite, a pilha de lixo era enorme. Quando o caminhão de lixo chegou de manhãzinha, a pilha estava reduzida à metade do tamanho. A casa do meu amigo fica perto da Filadélfia, nos Estados Unidos, um dos países mais ricos do mundo. E mesmo assim ainda havia pessoas catando lixo ...
Coisas! Alguns de nós têm um monte. Outros não têm suficiente. Os que não têm o suficiente se queixam por nao terem nada. Os que têm muito (e ainda pensam
que não têm o suficiente), às vezes nem têm mais espaço para todas as suas coisas. Então, jogam coisas fora ou organizam um bazar no jardim.

Não sendo americana e não tendo sido criada aqui, nunca entendi o conceito desses bazares de jardim, nos quais as pessoas carregam tudo o que não querem mais para o jardim e poêm esse material para venda. Acho estranho ver todos esses tipos de quinquilharias que deveriam estar, na verdade, no lixo, sendo compradas por pessoas que, na maioria dos casos, nem vão usá-las. O que alguém pode fazer com um gravador velho que não grava mais, com uma lâmpada velha torcida e desbotada, com livros sobre carros dos anos 1950? Mesmo sem entender como, já vi todas essas coisas sendo vendidas.

Simpatizo profundamente com as pessoas que precisam de pegar coisas no lixo porque não têm dinheiro para comprar nas lojas, e com as que vão nesses bazares de jardim porque têm pouco dinheiro. No entanto, pessoas que compram compulsivamente e, em seguida, colocam suas coisas para vender, depois compram mais, e depois ficam sem espaço e precisam mudar para uma casa maior para que possam acumular ainda mais coisas e, novamente, vendem o que não querem mais ... essas pessoas são um mistério para mim.

Fui criada no Brasil, onde grande parte da população não tem muito dinheiro, e me habituei com a ideia de não acumular coisas e de dar para os pobres tudo o que não precisasse. Fico perplexa de ver algumas pessoas pondo um copo para vender num bazar de jardim por 5 centavos, em vez de doá-lo para uma associação de ajuda aos pobres, e depois indo à Starbucks e pagando $ 2,50 por uma xícara de café, sem pensar duas vezes. Mas, nem todos cresceram como eu cresci, com crianças batendo na porta da minha casa implorando por comida, e sorrindo um sorriso triste quando recebiam mesmo que fosse um pedaço de pão.

Tuesday, May 19, 2009

The Bandoleiro From Caracas (O Bandoleiro De Caracas)




The Bandoleiro from Caracas attacked a crowd of teenagers in New York who were on their way to the library to work on a school project. The bandoleiro charged his horse over the teenagers making them run for cover inside buildings. Commenting on the savage attack, a candidate for Miss Universe said: Oh, he was so handsome!

Sorry, I mislead you. I deeply apologize. See, I am trying to sell my stories to American magazines and I need to practice. I was told that Americans get bombarded with all sort of information and don’t have time (or desire) to read anymore. If my story doesn’t have a murder, a mugging, a flood, a political scandal, or any other sort of tragedy in its first paragraph, chances are that nobody is going to read it.

Now, the instructions I get from all the guidelines for publication get me confused. If I tell the entire story in the first paragraph, what am I supposed to say next? And, how come the Americans don’t have time? Every evening when I look out of my window, I see the people who live on the other side of the street with the TV on. Couldn’t they spare some of that time to read?

I usually have at least five books beside my bed. The television, with all its colors and dramas, doesn’t appeal to me as much as a well-written book. But I like the ones that start slow, like a lover sneaking on me to give me an unexpected kiss, and little by little involve me in their arms until I am so taken that, when I realize, it is already 2am and I am still reading…

When I was a child, I wanted to be a writer so I went and got a B.A. in journalism, thinking that this was close enough to writing books. But being a journalist didn’t satisfy me. I didn’t want to report on other people’s lives. I wanted to create a world out of nowhere or out of my memories, and embellish this world with colors that only I could see. I wanted to be able to carry the readers to a place where nothing else would matter but the story, where they could forget for awhile all their problems.

Books have fascinated me all my life. I read books in many languages. I read in planes, trains, boats, in different houses of the world. I read when I was miserable, happy, nervous or desperate. The books were always there to comfort me, inspire me, and teach me. The Argentinean writer Jorge Luis Borges once said that he could imagine a world without anything, but not a world without books. I could not imagine that world either. A world without books would be like a world without food, without water, without life. A world too sad and colorless to anyone to picture.


O BANDOLEIRO DE CARACAS

O Bandoleiro de Caracas atacou, em Nova York, um grupoo de adolescentes que se dirigia à biblioteca para trabalhar num projeto escolar. O bandoleiro jogou o cavalo sobre os adolescentes, obrigando-os a se esconder dentro dos edifícios. Comentando sobre o violento ataque, uma candidata a Miss Universo disse: Ah, ele era tão bonito!

Desculpem por enganá-los. Sinto-me realmente culpada. Acontece que estou tentando vender minhas histórias para revistas americanas e preciso praticar. Ouvi dizer que os americanos são bombardeados diariamente por tantas informações e são tão ocupados, que não têm mais tempo (ou vontade) de ler. Se a minha história não tiver um assassinato, um assalto, uma inundação, um escândalo político, ou qualquer outro tipo de tragédia no primeiro parágrafo, na certa ninguém vai lê-la.

Confesso que as instruções que leio nos regulamentos para publicação me deixam confusa.... Se eu contar toda a história no primeiro parágrafo, o que devo escrever em seguida? E por que os americanos não têm tempo? Toda noite, quando olho pela janela, vejo as pessoas que moram do outro lado da rua assistindo televisão. Será que não podiam ler um pouco em vez de ver televisão?

Costumo ter, pelo menos, cinco livros ao lado da minha cama. A televisão, com todas as suas cores e dramas, não me atrai tanto quanto um livro bem escrito. Mas gosto das histórias que começam bem devagar, como um amante chegando devagarindo por trás de mim para me dar um beijo inesperado, e me envolvendo em seus braços até que eu esteja tão embriagada por ele que, quando reparo, já são duas da manhã e eu continuo lendo ...

Quando era criança, eu queria ser escritora. Por isso, fui estudar jornalismo, achando que isso era a coisa mais parecida que havia com escrever livros. Mas ser jornalista não me satisfez. Não queria escrever reportagens sobre a vida de outras pessoas. Queria criar um mundo imaginário que viesse do nada e embelezá-lo com cores que só eu pudesse ver. Queria ser capaz de levar os leitores a um lugar onde nada importasse além da história, um lugar onde pudessem esquecer por algum tempo todos os seus problemas.

Os livros têm me fascinado a vida inteira. Leio em várias línguas. Leio em aviões, trens, barcos, em tantos lugares do mundo… Leio quando estou triste, feliz, nervosa ou desesperada. Os livros estão sempre lá para me confortar, me inspirar, e me ensinar alguma coisa. O escritor argentino Jorge Luis Borges disse uma vez que poderia imaginar um mundo sem nada, mas não um mundo sem livros. Eu também não poderia imaginar um mundo assim. Um mundo sem livros seria como um mundo sem comida, sem água, sem vida. Um mundo triste e sem brilho.

Monday, May 18, 2009

Waiting For Life To Start (Esperando A Vida Começar )




There was once a soldier who wanted to fight in a war. He was happy when he was deployed to a fortress in the middle of the desert where the Tartars were constantly battling. However, when he got there, there was no war. The time came for him to be discharged and the soldier decided to stay in the desert so he could still wait for the war. He waited and waited. The war eventually came, but then he was already too old to fight in it.

I love this story from Dino Buzatti from his book The Tartar Steppe. How many of us spend our lives waiting for something special to happen, to get the job of our dreams, experience pleasures that we always longed for? Ah, one day I will do this and that – we promise ourselves. Ah, if only I had the time I would do this and that – we complain. And life passes, and we keep waiting for the perfect opportunity.

When we are young, the grownups usually ask us what we want to do when we grow up. When we grow up, we continue asking ourselves the same question and still don’t have an answer for it. Why do we need to wait for the special occasion, why can’t we go and do what our heart wishes for? Is it because we feel guilty when we dare to be happy? Is it because we are afraid of failure if we try to accomplish our dreams? Whenever the reason, we stay where we are, paralyzed, wishing and waiting, postponing the moments of happiness…

My aunt one day sent me a beautiful power point presentation about a man who was climbing a mountain and got stuck in the middle of a snowstorm. He was attached to a rope, but he felt that he was falling into an abyss. Out of desperation, he cried for God to help him. God told him to let go of the rope. But he couldn’t. He didn’t have enough faith. The following day he was found dead, a few feet from the safety of the ground. How many of us can really let go of the rope, have faith to follow our heart and fight for what we believe to be our destiny?

Sometimes I wonder about these people who change completely their lives, quitting a good job as an executive of a big company to work for a non-profit organization and start all over without any money. What surprises me, is that they always say that yes, they were scared to death. But still, they had the courage to make the change.

Today I was walking in Newtown and saw a cute pink house with rocking chairs on the front porch. One day I would love to be sitting there, admiring the calm street, the few pedestrians, and listening to the birds singing on the trees. But, even though the house was so beautiful, I would hate to be sitting at the porch just waiting for my life to start.


ESPERANDO A VIDA COMEÇAR

Era uma vez um soldado que sonhava em lutar numa guerra. O soldado ficou muito feliz quando foi mandado para uma fortaleza no meio do deserto onde os tártaros estavam constantemente lutando. No entanto, quando chegou lá, não havia guerra nenhuma. O tempo passou e chegou a hora de ele voltar para casa. O soldado não quis ir, pois tinha decidido que iria esperar a guerra. Esperou e esperou. Um dia a guerra foi finalmente declarada. Mas o soldado já era muito velho para lutar nela.

Adoro essa história de Dino Buzatti do livro O Deserto Dos Tártaros. Quantos de nós não passamos nossas vidas à espera de alguma coisa especial, como arrumar o emprego dos nossos sonhos, viver experiências que nunca ousamos experimentar? Ah, um dia vou fazer isso e aquilo – prometemos a nós mesmos. Ah, só se eu tivesse tempo faria isso e aquilo - nos queixamos. E a vida passa, e continuamos esperando o momento perfeito...

Quando somos crianças, os adultos geralmente nos perguntam o que queremos fazer quando crescer. Quando crescemos, continuamos nos perguntando a mesma coisa e ainda não temos uma resposta. Por que precisamos esperar pela ocasião especial, por que não podemos ir e fazer o que nosso coração tanto deseja? Será por que nos sentimos culpados quando nos atrevemos a ser felizes? Será por que temos medo de fracassar se tentarmos realizar nossos sonhos? Seja qual for a razão, acabamos ficando onde estamos, paralisados, desejando e esperando, adiando os momentos de felicidade.
Minha tia um dia me mandou uma apresentação de power point sobre um homem que estava escalando uma montanha e foi surpreendido por uma tempestade de neve. Mesmo estando amarrado a uma corda, o homem sentiu que estava despencando num abismo. Desesperado, implorou a Deus que o ajudasse. Deus lhe disse para largar a corda. Mas o homem não podia. Não tinha fé suficiente. No dia seguinte, foi encontrado morto, a poucos metros do chão. Quantos de nós temos coragem para largar a corda, ter fé para seguir nosso coração e lutar por aquilo que desejamos?

Às vezes penso sobre essas pessoas que mudam suas vidas completamente, deixando um bom emprego como executivo de uma grande empresa para trabalhar para uma organização sem fins lucrativos, e começar tudo de novo sem dinheiro. O que me surpreende, é que eles sempre admitem que estavam morrendo de medo. Mas mesmo assim, tiveram coragem para largar a corda, para mudar a vida.

Hoje estava andando em Newtown e vi uma casa linda cor de rosa, com cadeiras de balanço e uma varanda na frente. Um dia gostaria de estar sentada ali, admirando a rua calma, as pessoas que passassem, ouvindo os pássaros cantando nas árvores. Mas, mesmo que a casa fosse tão bonita, odiaria estar sentada na varanda, só esperando minha vida começar.

Sunday, May 17, 2009

The Wetland Train (O Trem Do Pantanal)



My friend told me that the train is coming back, and I am already excited waiting for it. The train will be called The Train Of The Wetlands and colorful drawings will decorate the outside of the air-conditioned cars. In the evening, it will stop in a town, in the middle of the way, and then continue the trip the next morning. So different from many years ago... But still the train of my memories.

When I was a child, most of our vacations started with a train trip. At that time there weren’t any drawings on the train and it also did not have a name. It was only “the train.” With its plain brown wooden wagons, it announced its arrival proudly in Corumba, Brazil, the engineer blowing the horn with gusto so everybody could come and admire the locomotive. At the train station, there was always a crowd waiting to board. Men juggled many suitcases while women carried a large amount of food for the trip, usually wrapped in tablecloths. Kids ran wildly, sometimes being scolded by their parents, afraid that they would end up under the iron wheels.

The first car of the train was the diner. Then came the sleepers followed by the coaches. At the rear were the flat cars carrying automobiles. We always reserved a place in the sleepers because our voyage lasted for almost two days. We were going from Corumba to Bauru, in the state of Sao Paulo, on our way to the shore.

The trip always started with a fight. My sisters and I had to decide who would sleep with whom in which cabin, and who would take the up bunk bed. After this matter was resolved and we all had run around examining everything, specially the small bathrooms in each car, we would settle for the night. For twelve hours we would shake from one side to another, at the rhythm of the train, trying to sleep in the narrow beds.

In the mornings the fun would really start. Savannas, forests, swamps and rivers paraded in front of our eyes, full of huge birds, alligators and wild pigs. At the first stop, women and kids approached the train selling mangos, guavas, pasteis, and popsicles… We always settled for the popsicles for even in the morning the heat was already unbearable. By lunchtime, we were covered in a brown dust that impregnated in our clothes, mixed with our sweat. By the afternoon, we had energy left only to move in slow motion. The vegetation outside seemed dry, thirsty and sad. We would start to wonder if the trip would ever end.

One more night in the narrow bunk beds, and we would finally arrive. After almost two days, we would leave the train feeling as if the ground was still moving below us. We would be dying to take a shower and, for once, sleep in a bed that didn’t shake.

Now, my friend tells me that the train is coming back, after having rested for more than a decade. I should not be excited about it, considering the heat and all the discomfort that we experienced in our trips. However, when I think about those voyages so long ago, what comes to my mind is the sight of the barefooted kids running along the tracks and waving to us, the warm feeling of the train moving from side to side and lulling us to sleep, the sky full of stars that we would see from our bunk beds, and the clickity-clack of the wheels breaking the silence of the night while we traveled through forests, savannas and swamps.

O TREM DO PANTANAL

Minha amiga me disse que o trem está voltando, e já estou animada esperando por ele. O trem vai ser chamar “O Trem Do Pantanal.” Os carros serão decorados com desenhos coloridos e terão ar condicionado. À noite, a viagem se interromperá numa cidade, no meio do caminho. No dia seguida, ela continuará. Tão diferente de muitos anos atrás ... Mas, apesar de tudo, o mesmo trem da minha memória.

Quando eu era criança, a maioria das nossas férias começava com uma viagem. Naquela época, não havia desenho nos vagões e o trem não tinha um nome. Era apenas “o trem”. Com seus vagões marrons, de madeira, ele anunciava a sua chegada em Corumbá com orgulho, o engenheiro tocando a buzina bem alto para que todos pudessem vir e admirar a locomotiva. Na estação, havia sempre uma multidão à espera de embarcar. Os homens carregavam uma porção de malas enquanto as mulheres carregavam uma quantidade imensa de comida para a viagem, normalmente embrulhada em toalhas. As crianças corriam por todo canto, e de vez em quando levavam uma bronca dos pais com medo de que elas acabassem embaixo das rodas de ferro.
O primeiro vagão do trem era o restaurante. Depois, vinham os vagões com cabines e por último os com poltronas. Atrás de todos, ficavam os vagões que transportavam os automóveis. Nós sempre reservávamos cabines, porque a nossa viagem durava quase dois dias. Estávamos indo de Corumbá para Bauru, no estado de São Paulo, o nosso primeiro passo em direção ao litoral.

A viagem sempre começava com uma briga. Minhas irmãs e eu tínhamos que decidir quem ia dormir com quem e aonde, e quem ficaria na parte de cima do beliche. Depois que esse problema estivesse resolvido e que a gente tivesse examinado todo o trem, especialmente os banheiros de cada vagão, nos preparávamos para dormir. Por doze horas sacolejávamos de um lado para o outro, ao ritmo do trem, tentando dormir pelo menos um pouco que fosse nas camas estreitas.

De manhã, a bagunça realmente começava. Atravessávamos florestas, pântanos e rios vendo inúmeras aves imensas, jacarés e porcos selvagens. Na primeira estação, mulheres e crianças aproximavam-se vendendo mangas, goiabas, pastéis e picolés ... Nós sempre acabávamos comprando picolés porque mesmo de manhã o calor já era insuportável. Na hora do almoço, já estávamos totalmente cobertas por uma poeira marrom que grudava na nossa roupa, misturando-se com nosso suor. De tarde, tínhamos energia apenas para nos mexer em câmara lenta. A vegetação do lado de fora do trem parecia seca, sedenta e triste. Começávamos a nos perguntar se a viagem nunca iria acabar.
Depois de mais uma noite nos beliches estreitos, chegávamos finalmente. Tínhamos ficado no trem praticamente dois dias e saíamos dele sentindo como se o chão ainda se mexesse embaixo dos nossos pés. Estávamos morrendo de vontade de tomar um banho e, finalmente, dormir numa cama que não sacolejasse.

Agora, minha amiga me disse que o trem está voltando, depois de ter ficado parado por mais de uma década. Não deveria ficar animada com a volta dele, considerando-se o calor e todos os desconfortos que passávamos durante as nossas viagens. No entanto, quando penso daquelas viagens, o que me vem à mente é a lembrança das crianças correndo descalças ao lado dos trilhos e acenando, o balanço gostoso do trem, de um lado para o outro, colocando a gente para dormir com sua monotonia, o céu cheio de estrelas que podíamos ver dos beliches, e os barulhos das rodas quebrando o silêncio da noite enquanto viajávamos através de florestas e pântanos.
Photograph: advertising for the "new" Train Of The Wetlands

Thursday, May 14, 2009

The Lovers Of My life (Os Amantes Da Minha Vida)



I walked slowly to the place where I was going to meet him, afraid of what I would find. I hadn’t seen him in a while. Would he look different? Would he still welcome me? With him, I never knew what to expect. Sometimes he was in a mood for singing and would enchant me and make me fall in love all over again. Sometimes he was tranquil and silent, and I could sit by his side and stay there for hours, in peace with the world and with myself. Sometimes he was violent, tempestuous, and I kept a certain distance although I could never completely escape his attraction.

We had met in so many places of the world… In each place he would choose a different name, but I would always recognize him. In Budapest, he was Danube. In Paris, he was Seine. In New York, he was Hudson. In Corumbá, he was Paraguay. In Manaus, he wanted to be called Amazonas.

The rivers of the world are the lovers of my life. They are all different yet somehow the same: always running from one place to another, always changing their mood, always indifferent to the people around them who admire their beauty.

I never learned his name in Aguas Calientes, Peru. When I got to the town, the river was peaceful and silent. I went out to do some sightseeing and when I got back to the hotel to take a nap, the entire room started to shake. I ran to the window, afraid of an earthquake. Fire sirens sounded close by. I ran down to the hotel-lobby and was told that there was a flood: the river had swollen and become violent after one week of torrential rains. We were supposed to evacuate to a high place in town. Before I followed the other travelers to safety, I couldn’t resist going and taking a look at him. The river, that had been so tranquil in the morning, was dark and sweeping everything in his way. He was red with mud and anger. My gentle lover was exploding, ready to kill.

I was in his arms in Thailand, and he embraced me gently while I glided on a flat bamboo boat guided by a man who respected the silence of the place. The river was like a mirror, reflecting the trees above him and by his side. He was quiet, letting the birds do all the talking.

Today I met him again, and once more we recognized each other. He told me that he wanted to be called Neshaminy. He whispered me his secrets and I whispered mine to him. Then we were enveloped by the silence and stayed there in harmony, just thinking


OS AMANTES DA MINHA VIDA

Caminhei lentamente para o lugar onde iria encontrá-lo, com medo do que estaria esperando por mim. Fazia muito tempo que não nos víamos. Será que ele estaria diferente? Será que ainda me receberia de braços abertos? Com ele, eu nunca sabia o que esperar. Às vezes, ele estava inspirado para cantar e me seduzir com sua bela voz, fazendo com que me apaixonasse novamente e perdidamente por ele. Às vezes, estava tranquilo e silencioso, e eu podia sentar ao seu lado e ficar horas em paz com o mundo e comigo mesma. Às vezes ele era violento, tempestuoso, e eu preferia guardar uma certa distância, embora nunca conseguisse escapar totalmente à sua atração.

Nós nos encontramos em tantos lugares do mundo ... Em cada lugar ele escolhia um nome diferente, mas eu sempre o reconhecia. Em Budapeste, ele se chamava Danúbio. Em Paris, Sena. Em Nova York, Hudson. Em Corumbá, Paraguai. Em Manaus, Amazonas.
Os rios do mundo são os amantes da minha vida. São todos diferentes mas, de alguma maneira, são sempre o mesmo: sempre correndo de um lugar para outro, sempre mudando de humor, sempre indiferente às pessoas que admiram a sua beleza.

Nunca soube o nome dele em Águas Calientes, Peru. Quando cheguei à cidade, o rio estava calmo e silencioso. Saí para passear e quando voltei ao hotel para dar uma descansada, o quarto inteiro começou a tremer. Corri para a janela, com medo de um terremoto. As sirenes dos carros de bombeiros soavam por perto. Corri para a entrada do hotel e fiquei sabendo que havia uma inundação: o rio tinha crescido e se tornado violento após uma semana de chuvas torrenciais. Teríamos que procurar refúgio num lugar alto da cidade. Antes que eu seguisse os outros viajantes para um lugar seguro, não pude resistir e fui dar uma olhada. O rio, tão tranquilo de manhã, tinha se tornado escuro, varrendo tudo que encontrasse pelo caminho. Estava vermelho com lama e raiva. Meu doce amante estava explodindo, pronto para matar.

Estive em seus braços na Tailândia, e ele abraçou-me suavemente, enquanto eu deslizava sobre suas águas numa balsa de bambu, conduzida por um tailandês que respeitava o silêncio do lugar. O rio era como um espelho, refletindo as árvores acima e ao lado dele. Calmo, ele deixava que os passarinhos cantassem e encantassem.

Hoje eu o vi novamente e, mais uma vez, nós nos reconhecemos. Ele me disse que queria ser chamado Neshaminy. Sussurrou-me seus segredos e eu sussurrei os meus. Então fomos envolvidos pelo silêncio e ficamos juntos em harmonia, só pensando.

Tuesday, May 12, 2009

In The Time Of The Dinosaurs (No Tempo Dos Dinosauros)


There were only two places in the hotel-farm where I stayed in my recent trip to Brazil in which a cellular would work: in the corner of the veranda and over the refrigerator. Since climbing on the refrigerator was out of the question, the veranda was a very popular spot. But even in there the signal for the cell would appear and disappear without any rational explanation, making it almost impossible to place a call.

After being in that hotel-farm for 3 days, we were thirsty for communication. In our way back to the city, we spotted some boys under a telephone pole holding their cells up in the air. Our driver did not hesitate one minute and stopped the car in the middle of the road so we, too, could try to get in touch with the civilization.

How could we have survived without a cell for so long? Nowadays, 3 days without a cellular is like slow death…I am sure that the kids of my kids will find it hard to believe, one day, that their grandmother grew up without a cell. They will probably look at me, puzzled, as if I were an extinct species, like the dinosaurs, and should be placed in a museum. I am also sure that I will find hard to explain to them that life did exist not only without a cell, but also without the television.

Growing up, we had just one phone in the house. It was a huge black rotary phone that my girlfriends and I used to call some cute boys and hang up giggling when they answered…Other times I would be on the phone with my best friend for so long that my father would get exasperated and drive home to tell my mother what he had meant to say by phone…

As for the TV, I saw the first one when I was about 10 years old and went to visit my grandmother in Rio de Janeiro. I was fascinated. The TV had not arrived yet in my hometown. Over there, in the evenings, we would place our chairs on the sidewalk in front of our house and sit for hours, talking with our neighbors. If we were lucky, the grandfather of my friend who lived next-door would tell us some magical stories.

Later, when I was sent to a boarding school in Rio de Janeiro, on Wednesdays nights the nuns would turn on the TV so we could watch a very popular show: “Roberto Carlos e a Jovem Guarda.” We all held our breaths while we followed, in black and white, our favorite artists singing the songs that described love so well…

These times are gone now, like the dinosaurs. The world is connected in ways that would be unthinkable some decades ago. Wherever we go, we take some sort of electronic gadget along with us. Our minds get bombarded with all kinds of information. And, to relax, we sit at the computer to read or write a blog…


NO TEMPO DOS DINOSAUROS

Tinha apenas dois lugares no hotel-fazenda onde me hospedei na minha recente viagem ao Brasil em que um celular funcionava: no canto da varanda e em cima da geladeira. Já que não podíamos subir na geladeira, a varanda era um local muito popular. Mas mesmo alí o sinal do celular aparecia e desaparecia sem qualquer explicação racional, o que tornava quase impossível fazer uma ligação.

Depois de ter ficado nesse hotel-fazenda três dias, estávamos sedentos por comunicação. No caminho de volta para a cidade, vimos alguns meninos embaixo de um poste telefônico segurando os celulares no ar. Nosso motorista não hesitou um minuto e parou o carro no meio da estrada, para que nós também pudéssemos entrar em contato com a civilização.

Como tínhamos sobrevivido sem um celular por tanto tempo? Hoje em dia, três dias sem celular é como morte lenta ... Tenho certeza de que os filhos dos meus filhos não poderão acreditar, um dia, que a sua avó cresceu sem celular. Se disser isso, eles provavelmente vão me encarar como se eu fosse uma espécie extinta, como os dinossauros, e achar que eu deveria estar num museu. Também tenho certeza de que vou achar difícil explicar como cresci não apenas sem celular, mas também sem televisão.

Quando eu era pequena, nós tínhamos apenas um telefone em casa. Era um telefone preto e grande, rotativo, que eu e minha melhor amiga usávamos para ligar para os meninos nos quais estávamos interessadas e desligar, morrendo de rir, quando eles atendiam ... Algumas vezes eu ficava no telefone com minha amiga tanto tempo, que meu pai perdia a paciência e dirigia para casa para dizer a minha mãe o que ele preferia ter dito por telefone ...

Quanto à TV, vi a primeira quando tinha mais ou menos 10 anos e fui visitar a minha avó, no Rio de Janeiro. Fiquei fascinada. A TV ainda não tinha chegado à minha cidade natal. Em Corumbá, de noite, colocávamos algumas cadeiras na calçada na frente da nossa casa e ficávamos sentados lá, horas, conversando com os vizinhos. Se tivéssemos sorte, o avô da minha amiga que morava na casa ao lado contava algumas histórias mágicas. Mais tarde, quando fui para um internato no Rio de Janeiro, às quartas-feiras as freiras ligavam a TV para que pudéssemos assistir a um show muito popular: "Roberto Carlos e a Jovem Guarda." Todas nós prendíamos a respiração enquanto assistíamos, em preto e branco, nossos artistas favoritos cantando músicas que descreviam tão bem o amor ...

Esses tempos já se foram, como os dinossauros. O mundo está ligado de uma forma que seria impensável há algumas décadas. Onde quer que vamos, sempre levamos algum aparelho eletrônico. Nossas mentes são bombardeadas por todos os tipos de informações. E, para relaxar, ligamos o computador para ler ou escrever um blog ...

Friday, May 8, 2009

The Green House (A Casa Verde)



Can you see that door on the second floor of the house, the one with the air conditioner on top? It was through the other door, the one on the left, that we used to jump outside to walk on the roof over the veranda, the kitchen, the laundry-room, until we got to the huge water-box and went down the precarious metal ladder to finally jump in the patio. My father used to get furious when we did that. We always ended up breaking some tiles and when he asked who had done that, nobody would volunteer… Now, can you see the veranda on the right, close to the pinkish flowers? We had our meals in there, sitting at a big wooden table. Some evenings the mosquitoes were so insistent that we would eat walking around the table, trying to balance a plate and a glass of juice in our hands. Ah, but you weren’t there at that time and you almost can’t see the veranda in the picture. And it is so difficult to describe the past…

I wonder if we become officially “old” when our memories start to look more interesting for us than the present. When we cross that tenuous line and our reminiscences seem so bright and we enjoy so much talking about them, is that when we are old? But isn’t the past what makes us who we are, like a painter crafting the lines of our lives? Sometimes I try to forget my past. The resolution doesn’t last long… In the mornings, when I turn to my left side of the bed to pick up a pencil and write down what I dreamed that night, it is my past that always appear showing glimpses of my sisters, my parents, my old friends, my house in Corumbá, Brazil.

The green house changed colors many times. I seem to remember it being blue once. Many years ago it was grey. It was my grandfather, the owner of large farms and boats that went down the Paraguay River carrying merchandise, who built the house in 1937. He imported Portuguese tiles for the floor. He also built a stable in the back. I remember vaguely the stable but I do remember very well the chickens that were kept in the backyard and the cook grabbing one of them, twisting its neck, placing it immediately inside a bucket full of hot water and peeling off its feathers. These days we would have chicken for dinner…

When the house was grey, the pictures that we took in it would be in sepia, or black and white. There are pictures of my mother with her seven siblings sitting in the living room, all of them very serious for at that time to take a picture was a very important affair. There are pictures of my four sisters and me in the patio, dressed only in our underpants, playing with a hose. There are pictures of us with our parents, seating at the swing, posing for eternity. There are pictures of many generations, all of them welcomed one day by the house. Now, almost all of us left for other towns, other countries. Only the house stays there, holding our memories, our secrets.


A CASA VERDE


Você está vendo aquela porta no segundo andar da casa, aquela com o ar condicionado em cima? Era aquela outra porta, a do lado esquerdo, que a gente usava para pular para o telhado e depois ir andando sobre o quarto, a varanda, a cozinha, a lavanderia, até chegar à caixa d’água e descer pela escada de metal de onde finalmente saltávamos no pátio. Meu pai costumava ficar furioso quando nós fazíamos isso. Nós sempre acabávamos quebrando algumas telhas e quando ele perguntava quem tinha feito aquilo, ninguém dizia nada ... Agora, você pode ver a varanda, à direita, perto daquelas flores cor de rosa? Fazíamos nossas refeições lá, sentados em uma grande mesa de madeira. Algumas noites os mosquitos eram tão irritantes que tínhamos de comer andando ao redor da mesa, tentando equilibrar um prato e um copo de suco nas nossas mãos. Ah, mas você não estava lá naquele tempo, e você quase nem pode ver a varanda na foto. E é tão difícil descrever o passado ...

Gostaria de saber se a gente se torna oficialmente "velha" quando nossas lembranças começam a parecer mais interessantes para nós do que o presente. Quando atravessamos essa linha tênue e as nossas reminiscências parecem tão vívidas e gostamos tanto de falar delas, é nesse ponto que ficamos velhas? Mas não é o passado que faz de nós aquilo que somos, como um pintor desenhando as linhas de nossas vidas? Às vezes eu tento esquecer o meu passado. A resolução não dura muito ... De manhã, quando me viro para o meu lado esquerdo na cama para pegar um lápis e escrever o que sonhei naquela noite, é o meu passado que sempre aparece mostrando imagens das minhas irmãs, meus pais, meus velhos amigos, a minha casa em Corumbá, Brasil.

A casa verde mudou de cores várias vezes. Eu acho que me lembro de uma época em que ela era azul. Muitos anos atrás, era cinzenta. Foi meu avô, dono de fazendas e barcos que desciam o Rio Paraguai transportando mercadorias, que construiu a casa em 1937. Ele importou pisos portugueses para cobrir o chão. Ele também construiu um estábulo atrás da casa. Lembro-me vagamente do estábulo, mas me lembro muito bem das galinhas que ficavam no quintal e da cozinheira pegando uma delas, torcendo o pescoço, colocando-a imediatamente dentro de um balde cheio de água quente e tirando as penas. Nesses dias, tínhamos galinha no jantar ...

Quando a casa era cinza, as fotos que tirávamos eram em sépia ou preto e branco. Há fotos de minha mãe com seus sete irmãos na sala de estar, todos eles muito sérios porque naquela época tirar fotografia era coisa muito importante. Há fotos minhas com minhas quatro irmãs, no pátio, só de calcinhas e brincando com uma mangueira. Há fotos nossas com os nossos pais, sentados no balanço, posando para a eternidade. Há fotos de muitas gerações, todas elas acolhidas um dia com todo o carinho pela casa. Agora, quase todos nós nos mudamos para outras cidades, outros países. Só a casa permanece lá, guardando nossas memórias, nossos segredos.


Photograph by Augusto Cesar Baptista Areal

Thursday, May 7, 2009

Lucky Woman (Mulher De Sorte)




The Peruvian taxi-driver was supposed to take me from Cusco to Oachutanga to see some Mayan ruins that stood majestic, defying the passage of time. I originally planned to go by bus with other tourists but since taxis were so inexpensive in that area, I decided to take one instead. Alberto, the taxi-driver, had already driven me to some places around Cusco and we made arrangements for him to pick me up at the hotel the following morning.



When Alberto arrived in his taxi, he had a surprise for me: he had brought along his fiancée… He asked me if I minded and I was too astonished to say that I did so Alberto, his fiancée and myself set out for a day on the mountains.


Alberto’s fiancée was very talkative. In five minutes she managed to extract from me details of my life that would take years for the people in the US to gather the courage to ask me about. Since I responded to her questions and added my own questions, we soon became best friends and she gave me a present: a CD that a cousin of hers had just released singing Peruvian songs and playing the flute.



I was so pleased with the gift that Alberto and his fiancée offered to take me on a side trip to see an old lady who lived in a simple adobe house by a dirt road, and who prepared and sold some sort of corn beverage very popular in the region. It was after that stop, when we were all talking and laughing like old buddies, that I told Alberto and his fiancée that, in fact, the main objective of my trip to Peru had been to see a shaman who was going to perform some ceremonies for me.

It turned out that Alberto knew all about the shaman, had already consulted him for some health issues and thought very high of him. Alberto was a firm believer on the shaman’s capability of healing and confided to me that he, Alberto, had a grandfather who was also a shaman and who had taught him how to read the destiny looking at cigarette’ ashes.



Now, I have to confess that I am fascinated with fortune-tellers. If you tell me that there is someone who really does a good job predicting the future, I will travel very far to consult that person. I have had fortune-tellers reading tarot for me, coffee powder, my hand, Brazilian shells, and all other sorts of things supposed to foretell the future. Cigarette’s ashes would be something new for me, so I didn’t hesitate to ask Alberto to stop the car right there and read my fortune.



Alberto parked the car on the shoulder of the unpaved road and asked me to light a cigarette and puff up. After a while, Alberto took it from my hand to read the ashes. Like many fortune-tellers, he predicted illness from which I would recover. He saw a handsome man, in fact two, and told me that I would have to decide between them. He foresaw success and disclosed some details of my future to which I didn’t even pay attention. Sitting inside the taxi with no air-conditioner and all windows opened, Peruvian music playing loudly on the CD, a fiancée who had showed up totally unexpected, and a taxi-driver who had taken me to the most unusual trip, I was feeling that I was a very lucky woman. And while many buses passed by, full of tourists looking at the mountains from a very comfortable setting, I realized that life could take us to the most beautiful places if we just had the courage to leave our hearts open to new opportunities.




MULHER DE SORTE

O taxista peruano me levaria de Cusco para Oachutanga para ver algumas ruínas maias que ainda restavam intactas, majestosas, desafiando a passagem do tempo. No começo, eu tinha pensado em ir de ônibus com outros turistas, mas já que táxis eram tão baratos nessa área, resolvi que pegaria um. Alberto, o motorista de táxi, já tinha me levado para alguns lugares nas vizinhanças de Cusco e combinamos que ele me buscaria no hotel na manhã seguinte.

Quando Alberto chegou no táxi, ele tinha uma surpresa para mim: a noiva dele tinha vindo junto ... Ele me perguntou se eu me importava, mas eu estava muito surpresa pra dizer que sim. Então eu, Alberto, e a noiva começamos nosso passeio em direção às montanhas.

A noiva de Alberto falava sem parar. Em cinco minutos, conseguiu extrair de mim detalhes da minha vida que alguém dos Estados Unidos levaria anos para descobrir. Como eu respondi às suas perguntas e também lhe fiz milhões de perguntas, logo nos tornamos amigas íntimas e ela me deu um presente: um CD que um primo dela tinha acabado de lançar, cantando canções peruanas e tocando flauta.

Fiquei muito feliz com o presente e, vendo minha felicidade, Alberto e sua noiva se ofereceram para me levar a uma cidadezinha que não estava no nosso programa, para que eu pudesse conhecer uma velhinha que morava em uma casa simples de adobe. A velhinha preparava e vendia uma bebida típica daquela região, à base de milho. Foi depois dessa visita, quando estávamos todos conversando e rindo como velhos amigos, que eu disse a Alberto e sua noiva que, de fato, o objetivo principal da minha viagem ao Peru era ver um curandeiro que iria fazer uma cerimônia indígena para mim.

Logo acabamos descobrindo que Alberto sabia tudo sobre esse curandeiro, que já tinha consultado o curandeiro para resolver alguns problemas de saúde, e que o achava fantástico. Alberto acreditava piamente na capacidade do curandeiro de curar as pessoas e me confidenciou que seu avô também era um curandeiro e que lhe tinha ensinado a ler o destino das pessoas através das cinzas de cigarro.

Bem, agora tenho de confessar que sempre fui fascinada por videntes. Se você me disser que conhece alguém que realmente é bom pra prever o futuro, não me importo de viajar horas para consultar essa pessoa. Já consultei gente que leu tarô para mim, borra de café, a minha mão, búzios, e mil outros tipos de coisas usadas para prever o futuro. Cinzas de cigarro seria algo novo para mim, e não hesitei em pedir para Alberto parar o carro ali mesmo e ler minha sorte.

Ele parou o carro ao lado da estrada e pediu para eu acender um cigarro e dar umas tragadas. Depois de um tempo, tirou o cigarro das minhas mãos para ler as cinzas. Como muitos outros videntes, ele disse que eu ia ficar doente mas iria me recuperar. Viu um homem bonito, na verdade dois, e me disse que eu teria que decidir entre eles. Disse que eu teria sucesso e falou sobre alguns detalhes do meu futuro, nos quais, para falar a verdade, nem prestei atenção. Sentada no táxi sem ar condicionado e com todas as janelas abertas, ouvindo música peruana tocando a todo volume no CD, ao lado de uma noiva que tinha aparecido de forma totalmente inesperada, e com um motorista de táxi que tinha me levado para uma viagem totalmente diferente, eu estava me sentindo uma mulher com muito sorte. E vendo os ônibus passarem, cheio de turistas admirando as montanhas das suas poltronas bem confortáveis, me dei conta de que a vida poderia nos levar a lugares muito bonitos e inusitados. Era só ter coragem para deixar os nossos corações abertos a novas oportunidades.

Wednesday, May 6, 2009

The Saddest Smile In The World (O Sorriso Mais Triste Do Mundo)


In 2006 I went to Thailand to what would be a magical trip. I rode elephants, visited golden temples full of Buddhist monks dressed in oranges robes, and toured the coastal villages in the south of the country that had been swept away by the unrelenting waves of the tsunami. However, nothing caused a deeper impression on me than the image of a girl with the saddest smile in the world. I never got to learn her name. In fact, we didn’t exchange one single word. She didn’t speak English and I didn’t speak Thai. Besides, what could I say to a girl who lived in an isolated village in the north of Thailand, on the border with Burma, who was one of the few remainders of the Long Neck Tribe?


For centuries the women of these tribes have worn ornamental brass rings around their necks. They add one ring at a time, with the objective of stretching their necks. The reasons why they do this got lost in time. But it is said that they take the rings off only on their weeding night because their muscles can no longer support the neck alone.


The village where the girl lived was very poor. Chickens and dogs walked about sharing the terrain with women and children dressed in vibrant colors. Their huts were covered with straws and formed a meandering line that went all the way to the forest. Some of the women washed their necks and shoulders outside the huts, getting water from a barrel, still wearing their colorful clothes wrapped around themselves.


The girl who caught my attention had her hair covered in the typical way of the northern Thai tribes and also wore the brass rings. But she had eye shadows and, over her traditional white blouse, she had a jeans jacket. Part of her lived in the past century while the other part yearned to be in the modern times. The traditions of the past seemed to be suffocating her with the heavy brass rings but still she was there, posing for tourist photos, with the saddest smile in the world.


The Thai girl made me think about the weight that we all carry on us and sometimes makes us behave in ways that we wouldn’t if we weren’t following someone else’s expectations. How often do we feel like throwing everything away, everything that we learned, everything that is expected of us, and just going about life totally free, doing exactly what we want? How many times do we refrain ourselves so we don’t shock our parents, our kids, our neighbors, the people at work? Like the girl, who will not be able to support her neck by itself anymore if she waits too long to get rid of the brass rings, we too might end up losing the desire to fulfill our dreams if we take too long to discover what we really want and fight for it. So, before we seat there, posing for family pictures with the saddest smile on our faces, maybe it is time for us to shout: That is enough! Today is my day!




O SORRISO MAIS TRISTE DO MUNDO


Em 2006 fui para a Tailândia para o que acabaria sendo uma viagem mágica. Andei de elefantes, visitei templos dourados com monges budistas vestidos com robes laranjas, visitei as cidadezinhas nas praias no sul do país que haviam sido destruídas pelas ondas implacáveis do tsunami. No entanto, nada me impressionou tanto quanto uma menina que parecia ter o sorriso mais triste do mundo. Nunca cheguei a saber o nome dela. Na verdade, nós não trocamos uma só palavra. Ela não falava inglês e eu não falava tailandês. Além disso, o que eu poderia dizer para uma menina que morava em uma aldeia isolada no norte da Tailândia, na fronteira com Myanmar, e que era uma das poucas remanescentes de uma tribo conhecida como a tribo das mulheres girafas?

Por séculos as mulheres dessas tribos têm usado anéis de bronze em torno de seus pescoços. Acrescentam um anel de cada vez, com o objetivo de esticar seus pescoços. As razões pelas quais fazem isso perderam-se no tempo. Dizem que as mulheres só tiram os anéis na noite de núpcias porque seus músculos já não conseguem sustentar o pescoço.

A aldeia onde a menina morava era muito pobre. Galinhas e cachorros andavam soltos pelas ruas, dividindo o terreno com mulheres e crianças vestidas com roupas de cores bem fortes. Os barracos eram cobertos com palhas e formavam uma linha tortuosa que se estendia até à floresta. Algumas das mulheres lavavam os pescoços e ombros atrás dos barracos, tirando água de um barril e ainda vestindo os sáris coloridos amarrados em torno do corpo.

A menina que me chamou a atenção tinha os cabelos cobertos na forma típica do norte da Tailândia e também usava os anéis de cobre em volta do pescoço. Mas ela tinha passado sombra nos olhos e, sobre a blusa branca tradicional, usava uma jaqueta jeans. Parte dela vivia no século passado, enquanto a outra parte sonhava com os tempos modernos. As tradições do passado pareciam sufocá-la com o metal pesado dos anéis, mas ela ainda estava lá, posando para as fotos dos turistas, com o sorriso mais triste do mundo.

A menina tailandesa me fez pensar sobre o peso que todos nós carregamos e que por vezes nos faz agir de uma maneira como não agiríamos se não estivéssemos tão preocupadas com as expectativas dos outros. Quantas vezes não temos vontade de jogar pro alto tudo que aprendemos, tudo o que é esperado de nós, e sair pela vida livremente, fazendo exatamente aquilo que queremos? Quantas vezes nos reprimimos para não chocar nossos pais, nossos filhos, nossos vizinhos, as pessoas do trabalho? Tal como a menina, que não será capaz de sustentar o pescoço por si mesmo se esperar muito tempo para se livrar dos anéis de bronze, nós também podemos acabar perdendo a coragem de realizar os nossos sonhos se esperarmos muito tempo. Portanto, antes que a gente fique posando para fotos de família com o sorriso mais triste no rosto, talvez seja hora de gritar: Chega! Agora é minha vez!

Tuesday, May 5, 2009

The Horsemen (Os Cavaleiros)


First we were told that there would be 300 of them; then, the number changed to 100. When we finally got to see the horsemen there were about 80 - men, women, young and old people, even babies in their mothers’ arms riding all kinds of horses. They had left the morning before from Nobres, a small town in the west of Brazil, and set camp for the night in the middle of a plateau. The following morning they had continued their journey and by nightfall they would be arriving at the town of Bom Jardim to participate in a big party with lots of dancing and drinks.

I was traveling with my children, my sister and my aunt through a remote part of Brazil. In the afternoon, at the hotel-farm where we were staying, we had heard about the horsemen and hurried to the dirty road close to the farm to watch they pass by. For a minute I forgot that I was 55 years old and climbed on the roof of the Land Rover to follow the unusual parade. Some of the men took control of their horses with one hand leaving the other free to hold a beer can. Others made a point of dressing their horses with silvery ornaments. Others yet bragged about the competitions in which they had taken part and gotten first place on account of being the best to lasso a bull. The journey had been long and tiring but the horsemen seemed happy.

What had made these people decide to participate in a 2 days ride from which they would certain leave with their butts and legs hurting? Looking at their faces tanned by the sun I tried to picture their lives. They had come from small towns surrounded by farms full of cows grazing freely on the fields. Weekends, during the day, they could enjoy a barbecue with their friends or go to a creek to swim surrounded by golden fish. In the evenings they could sit at the patios in their hammocks and tell stories. If the lights went out, some candles would appear out of nowhere and the stories would continue undisturbed by this small inconvenience.

And how about life in Newtown, US, where I lived? On the weekends, during the days, people would be going to malls, to movies, to the park, to a concert, running to so many different places. In the evenings, the TV would be on and more than 100 channels would present choices so difficult to make. The Internet would be connecting people and bringing news from many countries making it impossible for someone to log off, afraid of missing the last tragedy of the world.

Aside the miles and miles that separated my home in the US from the homes of the horsemen, so many other things set us apart. Which style of life would be more interesting? For me, the life of the horsemen seemed intriguing. For them, the life in America would hold an irresistible appeal. But would one style of life be better than another? Thinking of the nights so full of stars in the west of Brazil I could only conclude that life is full of mysteries and that we won’t ever be able to decipher all of them.


OS CAVALEIROS


Primeiro ouvimos dizer que eles seriam 300. Depois o número mudou para 100. Quando finalmente vimos os cavaleiros, havia cerca de 80 - homens, mulheres, jovens e idosos, até bebês com as mães, todos montando vários tipos de cavalos. Eles tinham saído de manhã de Nobres, uma cidade pequena no oeste do Brasil, e tinham acampado de noite num planalto. De manhã, continuaram a viagem e, de noite, estavam planejando chegar na cidade de Bom Jardim para participar de uma festança com muita dança e bebidas.

Eu estava viajando com minhas filhas, minha irmã e minha tia por uma região remota do Brasil. De tarde, no hotel-fazenda onde nos hospedávamos, tínhamos ouvido falar sobre a cavalgada e fomos rápido pra estrada de terra perto da fazenda por onde ela passaria. Por um minuto até me esqueci de que eu era uma mulher de 55 anos e subi no teto do Land Rover pra assistir àquela parada tão diferente. Alguns dos homens seguravam as rédeas dos cavalos só com uma das mãos, deixando a outra livre para poder segurar uma lata de cerveja. Outros tinham feito questão de enfeitar seus cavalos com selas e outros ornamentos prateados. Outros ainda contavam papo sobre as competições em que tinham tomado parte e ganho primeiro lugar por causa das suas habilidades em laçar um touro. A viagem tinha sido longa e cansativa, mas os cavaleiros pareciam felizes.

O que tinha levado essas pessoas a resolver participar de uma cavalgada de 2 dias, da qual com certeza sairiam com dor nos quadris e nas pernas? Enquanto olhava pra aqueles rostos curtidos pelo sol, comecei a imaginar a vida daquelas pessoas. Na certa eles tinham vindo de cidades pequenas cercadas por fazendas cheias de gado pastando livremente nos campos. Nos fins de semana, durante o dia, faziam um churrasco com os amigos ou iam nadar num rio cheio de peixes dourados. À noite sentavam-se nas varandas, nas cadeiras espreguiçadeiras, e contavam histórias. Se as luzes se apagassem, algumas velas apareceriam de repente de algum lugar e as histórias continuariam, sem se perturbarem com esse pequeno contratempo.

E a vida em Newtown, nos Estados Unidos, onde eu morava? Nos fins de semana, durante o dia, as pessoas iam para os shoppings, ao cinema, ao parque, a concertos, correndo de um lugar para outro. À noite, a televisão estava ligada e com tantos canais disponíveis que era quase impossível escolher entre eles. A Internet mostrava notícias de quase todos os países numa rapidez incrível, deixando todo mundo com medo de desligar o computador, para não perder a última tragédia do mundo.

Além dos quilômetros e quilômetros que separavam minha casa nos Estados Unidos das casas dos cavaleiros, tantas outras coisas mais nos diferenciavam. Que estilo de vida seria mais interessante? Para mim, a vida dos cavaleiros parecia intrigante. Para eles, a vida na América na certa teria um apelo irresistível. Mas será que um estilo de vida seria melhor do que outro? Lembrando-me das noites tão estreladas na região do centro-oeste do Brasil, a única conclusão a que cheguei é de que a vida é cheia de mistérios e não conseguiremos nunca decifrar todos eles.

Monday, May 4, 2009

The Banana Man (O Bananeiro)



I grew up with the banana man but he knows more about me than I know about him. He knows who my parents and my sisters are and he never fails to greet me when he sees me. I know only that he comes early in the morning pulling his cart, takes his fruits out of wooden crates and spread them over a flat board inside the cart. During the day he can be seen barefoot, sitting in a plastic chair in front of the cart, talking with people who pass by as comfortable as if he were in his living room. By the end of the day he puts his fruits away, covers his cart and heads to a home that I know nothing about.

I don’t remember when I saw the banana man for the first time. Was he selling his fruits at my street since I was a kid and used to be sent to the small store around the corner with an old black composition book in which the vendor would write down everything I bought so my mother could pay him at the end of the month? Was he already there when I was in elementary school and would pass by every day at 1pm, sweating in my white uniform under the relentless Brazilian sun, hauling my books on my way to school? Was he there at Carnival times when the schools with people dressed in Indians costumes would parade throughout the streets at the sound of animated music? I remember being at the front window of my house and watching the make-believe Indians dancing while I tried to hide behind my mother’s skirt, afraid of the faces painted in red and the enormous feathers adorning the Indian’s heads. I remember that, but I can’t remember if the banana man was already there at that time.

The banana man was there for sure years later, when my elegant father started forgetting who he was and would dodge my mother’s surveillance and escape to the street shoeless. My father had been spotted talking with the banana man at that time. What did they talk about? I wonder. The banana man had a word to say to everyone and his presence was always reassuring. I saw him last time in 2004 when I visited my hometown in Brazil and asked him if I could take a picture of him. He wanted to know how much the picture would cost and I just laughed…

My sister told me a few weeks ago that the banana man had asked if he could have her dog, which he liked a lot. When she told me that, she made me happy. For me, the banana man is like the flavors of an ice cream that we try once and never forget, always bringing a smile to our face when we think about it. The world might change. I can move from one country to another. But the knowledge that the banana man is still at that street, barefooted as always, makes me feels that there will always be a place called home.




O BANANEIRO


Eu cresci com o bananeiro, mas ele me conhece muito mais do que eu o conheço. Ele sabe quem são meus pais e minhas irmãs e nunca deixa de me cumprimentar quando me vê. Eu sei apenas que ele chega de manhã cedo puxando seu carrinho, tira as frutas das caixas de madeira e as espalha em cima duma tábua dentro do carrinho. Durante o dia, ele pode ser visto descalço, sentado numa cadeira de plástico na frente da banquinha, conversando com as pessoas que passam, tão à vontade como se estivesse na sala de visitas da sua casa. No final da tarde, ele guarda as frutas, cobre a banquinha e vai embora pra sua casa da qual não sei absolutamente nada.

Não me lembro quando vi o bananeiro pela primeira vez. Será que ele já vendia suas frutas quando eu era pequena e ia ao mercadinho da esquina levando uma caderneta preta onde o dono da loja anotava tudo que eu comprava pra minha mãe poder pagar no final do mês? Será que ele já estava lá quando eu cursava o primeiro grau e tinha de andar pra escola à uma da tarde, no maior calor, suando no meu uniforme branco e carregando um monte de livros escolares? Será que ele já estava lá no carnaval, quando as pessoas se fantasiavam de índios e desfilavam pelas ruas ao ritmo das músicas carnavalescas? Eu me lembro de ficar na janela da minha casa, vendo os homens fantasiados de índios e tentando me esconder atrás da saia da minha mãe, com medo dos rostos pintados de vermelho e das penas enormes com que os homens enfeitavam as cabeças. Eu me lembro do carnaval, mas não me lembro se o bananeiro já estava lá nessa época.

O bananeiro estava lá com certeza alguns anos mais tarde, quando meu pai que era tão elegante começou a esquecer-se de quem ele era e driblar a vigilância da minha mãe pra ir pra rua descalço. Meu pai foi visto conversando com o bananeiro naquela época. O que será que eles conversavam? O bananeiro tinha uma palavrinha pra todo mundo e sua presença sempre era reconfortante. Eu o vi pela última vez em 2004 quando visitei a minha cidade natal e perguntei se podia tirar uma foto dele. Ele quis saber quanto que a foto ia custar e eu só ri ...

Minha irmã me disse há algumas semanas que o bananeiro tinha perguntado se poderia ficar com o cachorro dela, do qual ele gostava muito. Quando ela me disse isso, fiquei muito feliz. Para mim, o bananeiro é como um sorvete que tomamos uma vez e nunca esquecemos, sempre nos fazendo sorrir quando pensamos nele. O mundo pode mudar. Eu posso mudar de um país pra outro. Mas o fato de eu saber que o bananeiro continua lá na minha rua, descalço como sempre, me deixa tranquila, com a sensação de que pelo menos algumas coisas na vida continuam inalteradas.